quarta-feira, 2 de junho de 2010



A Eucaristia vista por um invisual

O som desperta a memória para imagens de outros tempos, o cheiro torna-se familiar e o paladar traz recordações que hoje ajudam Manuel Lopes Dias a ver a vida de outra forma.

A vivência da Eucaristia hoje é diferente. Os sentidos estão agora mais despertos e vêem o que os olhos não conseguem mais ver desde que aos 23 anos uma mina na Guerra do Ultramar, em Moçambique lhe tirou a visão. Mas é com profundidade que Manuel Lopes Dias aceita o convite para semanalmente celebrar o memorial do Sangue e Corpo de Cristo.

Numa entrevista à Ecclesia, Manuel Dias, coronel e vice-presidente da Associação dos Deficientes das Forças Armada, confessa que não vai à missa todos os Domingos, mas em cada eucaristia que celebra descobre sempre um aspecto novo.

Manuel Dias não vê e por isso, é através dos sons, dos cheiros e do paladar que celebra vivamente o sacramento da Eucaristia.

“Eu quase que como as palavras que ouço. Como-as e medito nelas”, afirma.

As palavras não são novas mas, afirma, “há sempre um aspecto novo”. Ao sair da Eucaristia, o vice-presidente da ADFA não quer falar, mas opta por “desfrutar” ainda do que teve acesso.

A Eucaristia é, segundo o director de Liturgia do Patriarcado de Lisboa, o Cónego Luís Silva, celebrada por homens concretos, com cinco sentidos, e por isso a corporeidade está presente.

“O cheiro dos incensos, a palavra, a música, a beleza dos paramentos apreciados através da visão, no fundo são os sentidos do ser humano que participam da celebração”.

O homem celebra “um mistério que o transcende, mas esse mistério é celebrado por homens concertos, com cinco sentidos”.

A Eucaristia é celebrada em comunidade. Um grupo de pessoas reunidas que se tornam presentes mesmo para quem não as vê. Manuel Dias sente a comunidade pulsar nos diferentes momentos da eucaristia mesmo quando esta não tem noção dos seus movimentos.

“Quando vou à igreja sinto-me rodeado pela comunidade, sejam crianças, jovens, idoso, homens e mulheres. É uma presença que se sente através do tacto, dos cheiros, pelo andar ou até pelo barulho que as pessoas fazem”, traduz o Coronel.

A comunidade torna-se efectiva quando reza a oração do «Pai-nosso». Esta é a oração comunitária eleita por Manuel Dias.

“Sinto uma vibração enorme quando se reza o «Pai-Nosso»”.

Entrar numa igreja é um convite espiritual que na rotina diária se esconde, mas que não escapa a quem vê de forma única. O cheiro do incenso é para Manuel Dias um convite imediato à espiritualidade.

“O incenso dá-me um ambiente espiritual de elevação, de serenidade, um apelo à interioridade”.

Sem ver o turíbulo a incensar o Evangeliário, o altar ou a assembleia, Manuel Dias imagina o incenso a subir.

Explica o Cónego Luís Silva que a incensação traduz a uma “envolvência”.

“A assembleia, os dons, o pão e o vinho, o altar, o crucifixo e o presidente são incensados, porque todos são divinos”.

O comungar é para Manuel Dias a recordação mais antiga que tem. “O paladar é igual ao de sempre”.

Depois da consagração dos dons por parte do presidente da celebração, Manuel Dias aguarda o partir da hóstia.

“Mesmo se estiver no fundo da igreja, eu ouço o padre a partir a hóstia. Ouço-o porque estou à espera disso para acompanhar a cerimónia”.

Manuel Dias vive a Eucaristia de forma sensitiva. Os seus sentidos aliam-se à razão e mostram um mundo novo, diferente da rotina em que se esconde a fé partilhada. O invisível fica visível perante o olhar de um invisual.

“Uma igreja antiga tem um cheiro diferente, cheira a milhares de pessoas que ali passaram. As pedras sugam as pessoas que ali passaram e sentimos um cheiro diferente”.

O alimento, o sentir a comunidade, o cheiro, a palavra escutada são um convite completo deixado como memorial para ser celebrado por todos os homens.

Agência Ecclesia
Pão de Cristo – O PÃO DA VIDA


LÊ EM SILÊNCIO E MEDITA. É CURTO E INSPIRADOR.

O que se segue é um relato verídico sobre um homem chamado Vítor.
Depois de meses sem encontrar trabalho, viu-se forçado a recorrer à mendicidade para sobreviver, o que o entristecia e envergonhava muito.
Numa tarde fria de inverno, encontrava-se nas imediações de um restaurante de luxo, quando viu chegar um casal.
Vítor pediu-lhe algumas moedas para poder comprar algo para comer.- Não tenho trocos - foi a resposta seca.
A mulher, ouvindo a resposta do marido, perguntou:- Que queria o pobre do homem?
- Dinheiro para comer. Disse que tinha fome - respondeu o marido encolhendo os ombros.-
Lourenço, não podemos entrar e comer comida farta de que não necessitamos e deixar um homem faminto aqui fora!
- Hoje em dia há um mendigo em cada esquina! Aposto que ele quer é dinheiro para beber!
- Mas eu tenho uns trocos comigo. Vou dar-lhe alguma coisa!
Mesmo de costas para eles, Vítor ouviu tudo o que diziam. Envergonhado, queria afastar-se e fugir dali, mas a voz amável da mulher reteve-o:
- Aqui tem qualquer coisa. Consiga algo de comer, e, ainda que a situação esteja difícil, não perca a esperança: há-de haver, nalgum lugar um trabalho para si. Faço votos para que o encontre.
- Muito obrigado, minha senhora. A senhora ajuda-me a recobrar o ânimo! Nunca esquecerei a sua gentileza.
- Vai comer o Pão de Cristo! Partilhe-o! - acrescentou ela com um largo sorriso, dirigido mais ao marido do que ao mendigo.
Vítor sentiu como se uma descarga eléctrica lhe percorresse o corpo.Foi a um lugar barato para comer um pouco. Gastou só metade do que tinha recebido e resolveu guardar o restante para o dia seguinte: comeria do 'Pão de Cristo' dois dias.Mas uma vez mais sentiu aquela descarga eléctrica a percorrer-lhe o corpo: O PÃO DE CRISTO!"Um momento! - pensou - Eu não posso guardar o 'Pão de Cristo' só para mim".Parecia-lhe como que escutar o eco de um hino antigo que tinha aprendido na catequese.
Naquele momento, passava um velhote ao seu lado.- Quem sabe, se este pobre homem não terá fome também - pensou - Tenho de partilhar o 'Pão de Cristo'.- Ouça - chamou Vítor - Quer entrar e comer uma comidinha quentinha?O velho voltou-se e encarou-o de olhar incrédulo.- Está a falar sério, amigo? O homem não acreditava em tanta sorte, até estar sentado à mesa coberta com uma toalha e com um belo prato de comida quente à frente.Durante a refeição, Vítor reparou que o homem envolveu um pedaço de pão num guardanapo de papel.- Está a guardar um pouco para amanhã? - Perguntou.- Não, não. É conheço um miúdo da rua e que tem passado mal ultimamente. Estava a chorar com fome, quando o deixei. Vou levar-lhe este pão.- O Pão de Cristo! - Recordou novamente as palavras da senhora e teve a estranha sensação de que havia um terceiro convidado sentado naquela mesa.Ao longe, os sinos da igreja pareciam entoar o velho hino que antes lhe tinha ressoado na cabeça.Os dois homens foram levar o pão ao menino faminto que o começou a devorar com alegria. Subitamente, deteve-se e chamou um cãozinho, um cachorrinho pequeno e assustado.- Toma lá. Metade é para ti - disse o menino. O Pão de Cristo também chegará para ti.O catraio tinha mudado de semblante. Pôs-se de pé e começou a correr com alegria.- Até logo! - disse Vítor ao velho - Nalgum lugar encontrará emprego. Não desespere! Sabe? - sussurrou - Isto que comemos é o Pão de Cristo. Foi uma senhora que me disse quando me deu aquelas moedas para o comprar. O futuro só nos poderá trazer algo de muito bom!Enquanto se afastava, Vitor reparou melhor no cachorrinho, que lhe farejava as pernas. Abaixou-se para o acariciar, quando descobriu que ele tinha uma coleira onde estava gravado o nome e o endereço do dono.Vítor pegou nele e caminhou um bom bocado até à casa dos donos do cão, e bateu à porta.Ao ver que o seu cãozinho tinha sido encontrado, o homem primeiro ficou todo contente; depois, tornou-se mais sério, pensando que se calhar o teriam roubado; mas, encarando a cara séria de Vítor e vendo no seu rosto um ar de dignidade, disse então:- Pus um anúncio no jornal oferecendo uma recompensa a quem encontrasse o cão. Tome!Vítor olhou o dinheiro, meio espantado, e disse:- Não posso aceitar. Eu apenas queria fazer bem ao animal.- Pegue-lhe! Para mim, o que você fez vale muito mais que isto! E olhe, se precisar de emprego, vá amanhã ao meu escritório. Faz-me falta, ao pé de mim, uma pessoa íntegra assim.Vítor, ao voltar pela avenida, como que volta a ouvir aquele hino que recordava a sua infância e que lhe ressoava no espírito. Chamava-se 'REPARTE O PÃO DA VIDA'.

sábado, 22 de maio de 2010

Io Sono l'Amore


De: Luca Guadagnino
Com: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini
Género: Drama
Classificacao: M/12 ITA, 2009, Cores, 120 min.

Corpos estranhos por Jorge Mourinha
(crítico de cinema no jornal Público)

Tilda Swinton é sublime num filme gloriosamente operático que reinventa o melodrama clássico e a saga familiar para um tempo em que eles já não existem
Atente-se na "chave" que dá título a este grandíssimo filme: Maria Callas, ela própria, interpretando a ária da "Mamma Morta" de Giordano, na banda-sonora do "Filadélfia" de Jonathan Demme, que Tilda Swinton vê uma noite na cama à beira de adormecer, antes de o marido chegar e mudar de canal sem sequer lhe perguntar o que está a ver. A frase que Callas canta é "Io sono l'amore" - "eu sou o amor" - e é nesse momento em que o marido a ignora como mera presença utilitária que a divina, gloriosa Tilda toma perfeita consciência do seu papel na poderosa família milanesa. Ela é a verdadeira "mamma morta" (aliás, mais tarde, alguém lhe dirá "tu não existes"), até o amor lhe cair do céu, numa noite de Inverno, na pessoa de um visitante inesperado que nem sequer fica para tomar café.
É complicado explicar o que se passa em "Eu Sou o Amor" sem correr o risco de menorizar a terceira ficção de Luca Guadagnino, porque o que eleva o filme ao estatuto de obra-prima é a abordagem operática, virtuosa, formalista, estilizada, hiper-romântica e pós-modernista com que o cineasta siciliano encara o melodrama clássico e a saga familiar, o modo como ele instala no classicismo do género um corpo estranho através de Tilda Swinton. Vamos, ainda assim, tentar: conhecemos os Recchi, poderosa família industrial milanesa, à volta da mesa do jantar de aniversário do patriarca, que acaba de decidir deixar o negócio de família ao filho e ao neto. Nesse jantar que respira um travo de passado glorioso, de aristocracia fora-de-tempo, percebemos também o papel que as mulheres nele desempenham: Rori, a matriarca, fiel guardiã da tradição familiar; Betta, a neta, de temperamento artístico, que começa a sentir-se limitada pelas expectativas da família; e Emma, a mulher do filho, a anfitriã perfeita, uma mulher discreta que aceitou representar o papel que lhe foi distribuído. Mas que, muito rapidamente, compreendemos que não lhe chega.

Emma é, evidentemente, Tilda Swinton, e a sua presença introduz o pauzinho na engrenagem da saga familiar; é o tal "corpo estranho" de que falávamos - não apenas pela sua personagem ser uma "intrusa" que, aceite pela família, nunca se sentiu inteiramente parte dela, mas também porque a presença física da actriz, pálida, alta, observadora, cria um contraste, lança um desequilíbrio, introduz uma nota de dissonância no conforto luxuoso que a rodeia. Esse contraste é depois amplificado pelas cenas de exteriores rurais onde se desenrola o "affaire" de Emma, de uma sensualidade exacerbada que se opõe à rigidez estruturada do palacete dos Recchi. Guadagnino mantém essa emoção a borbulhar subterraneamente durante todo o filme (sabiamente sublinhada pela música do compositor minimal John Adams), para apenas a deixar sair em momentos judiciosamente escolhidos, como uma panela de pressão que já quase não consegue aguentar a tensão.

É inevitável pensarmos em mestre Visconti (há um travo de "O Leopardo" a passar por aqui, um fôlego de grande ópera italiana) ou em mestre Sirk (a transcendência da história banal através da encenação arrebatada e gloriosa), mas o que é notável em "Eu Sou o Amor" é que Guadagnino consegue marcar a distância dos mestres, criar o seu próprio modo de os actualizar e modernizar, sem medo de correr riscos e sem se retrair para não parecer ambicioso. Fá-lo com a preciosa ajuda da divina Tilda, a comprovar como é uma das maiores actrizes contemporâneas, e de um elenco impecável onde encontramos o actor e encenador Pippo Delbono e os veteranos Gabriele Ferzetti e Marisa Berenson (é impossível não recordar "Morte em Veneza"...), como quem sublinha que a estrutura rígida do melodrama exige o tal corpo estranho para rebentar por todos os lados e construir algo de novo que se insere numa tradição e a reinventa sem pruridos. "Eu Sou o Amor" é uma obra-prima.



Oração Pentecostes





vem, Espírito de Deus,

vem como uma noite de fogo

e acorda o que em nós, na luz do dia dorme


vem, memória aberta, sobre o que acontece

e cumpra-se o que às nossas pobres visões presentes falta


vem, memória da casa, de corpo não enclausurada

e que se desloque e a sua desordem


vem, deslocação da estância, negação da estatística

e do algortimo,

que nos ensinas a ordem através do ruído

e que só na mobilidade encontras o repouso


vem, força de Deus, deslocação do ponto fixo,

da casa murada e fria e defendida:

que um terramoto faça tremer a língua e estremecer o corpo

que não é neutro nunca se o calor se o calor o habita


vem, sabedoria, dizer à nossa vida que o racional e lacunar,

efeito de margem, e só há saber das ilhas

vem ensinar à nossa vida a finitude

e que recebamos sem extâses inúteis nem cegueira

o invisível que em nós trabalha o barro


vem, amor derramado em nossos corações,

vem lembrar que um coração frio

não pode compreender uma palavra de fogo

e que só há vida e piedade e coragem porque o amor nos move


vem, instante de fogo e de ternura,

alegria sem medo do ilimitado do corpo e do ilimitado do dom

que invocamos neste fim de tarde

e que nos ensinas a rezar


De José Augusto Morão, O Nome e a forma, Pedra Angular, 65-66.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A desnudação do corpo


A desnudação do corpo

A instantaneidade e a mediatização da vida pública é um dos efeitos da dita sociedade digital e da era da globalização. A informação parece ser sinónimo de conhecimento e de verdade absoluta da realidade. Tudo nos é dado em directo, ao segundo, como que tudo acontecesse aqui e agora. Os acontecimentos passam a verdade absoluta logo que são noticiados, sem hipótese do contraditório, criando a ideia generalizada de que tudo e todos são iguais.

É neste clima de suspeição e de nebulosa existencial, onde ninguém parece saber para onde vamos, que surge a perversão dos corpos, onde cada um vende e compra no grande mercado da informação as notícias mais convenientes à ideologia corrente. Isto está bem patente no célebre slogan britânico: “Provavelmente Deus não existe. Goza a vida”. E aqueles que, por limitações da mente e do corpo, sociais ou económicas, não podem gozar a vida? Quem lhes fará justiça? O homem dançante e inebriado de Nietzsche? Como afirma brilhantemente o convertido pensador Chesterton: “os críticos modernos da autoridade religiosa assemelham-se àquelas pessoas que atacam a polícia sem nunca terem ouvido falar de ladrões” (Ortodoxia, Alêtheia, p. 43).

A lógica actual foi reduzida à sua máxima simplicidade, pois o que parece contar como exclusivo são as premissas que geram conclusões viciadas. E as variantes de um determinado facto não deverão contar como válidas? Um exemplo claro dessas premissas falaciosas são os casos de pedofilia na Igreja. Em virtude do envolvimento de alguns membros do clero, aliás reduzidos, se comparados com milhares de casos noutros sectores da vida familiar e pública das sociedades modernas, alguns concluem que o crime de pedofilia é uma descoberta recente!

No meio de tudo isto uma questão, entre muitas, se levanta: se foram alguns membros do clero a cometer tais actos, porque é que alguns pedem a condenação do Papa e não a aplicação da justiça humana aos padres que cometeram esses crimes? Alguns argumentarão que muitos deles já morreram. A conclusão torna-se lógica: a haver condenação que seja o Papa. O que é estranho, porque, por exemplo, se alguns dos membros da ONU cometessem este ou outro tipo de crime, ninguém se lembraria de pedir a condenação do Secretário-Geral da ONU! A lógica anti-católica de alguns grita ruidosamente que a Igreja entre na denúncia dos seus membros, colocando-os inteiramente à mercê do mediatismo e do espectáculo. Essa é a lógica do Big Brother, neste caso religioso, em que a Igreja nunca poderá entrar, até por uma questão de justiça e verdade para com as vítimas. A desnudação do corpo é uma constante ao longo da história. Foi assim com Jesus, maltratado e injuriado, acusado inocentemente; como “servo sofredor” suportou sobre si todas as enfermidades. As suas vestes foram repartidas e sobre elas deitaram sortes. Esse foi o grande espectáculo mediático de Pôncio Pilatos, apoiado por fariseus, incomodados e sedentos de poder e fama. Será o discípulo mais do que o Mestre?

Neste sentido, ninguém pode estar à espera, embora fosse o desejo diabólico de muitos bem-falantes, que a Igreja fizesse um briefing ou uma abertura mediática nos telejornais a acusar os seus sacerdotes e bispos que cometeram tais crimes. Um Pai que ama o seu Filho não o condena nem o entrega à condenação pública de qualquer forma. À Igreja, como corpo de Cristo, cabe-lhe sim agir com Verdade e na Verdade [Caritas in Veritate], discernindo o que notícia e o que é facto. Mesmo sendo clara nas suas normas e decidida nas suas atitudes, parece que o coro dos lobbys sem rosto (relativistas, gays, ateus militantes, grupos económicos, sociedades secretas…) continua a gritar mais alto, pedindo a crucifixação do inocente, qual “cordeiro levado ao matadouro”.

Isto revela que estamos claramente perante uma tentativa de decapitação de Bento XVI, que é, alias, um dos grandes pensadores do séc. XX e XXI. Pensador e profeta, porque capaz de colocar as questões centrais da vida humana, no tempo e lugar próprios, sem se esconder por detrás do «politicamente correcto» e dos interesses político-religiosos. Talvez seja isso que esteja a incomodar alguns intelectuais ultra-modernistas. É graças ao pensamento dominante, aos profetas da corte e do imediato, para quem Deus não tem direito a habitar no espaço público e o ser humano é reduzido ao factum, que assistimos à derrocada do estilo de vida moderna e da civilização Ocidental.

O momento que a Igreja vive é de purificação e de renovação. Diante do diálogo com o mundo e a cultura, ela sabe discernir prudentemente as decisões a tomar. Os seus membros, assistidos pelo Espírito de Deus, terão de olhar para o horizonte da conversão e da reconciliação permanente. A grandeza da Igreja não está nos seus bens patrimoniais, está no seu testemunho profético e ousado de anunciar que Cristo está vivo e que cada ser humano necessita de ser perdoado e amado setenta vezes sete. Isso é incómodo e incómoda? Então, eis a Igreja a renascer das cinzas, mesmo se alguns franco-atiradores continuam a vaticinar o seu fim!

João Paulo Costa

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Poema Quaresmal...



viagem no deserto

abre-nos, Deus, a porta
através das águas
para a grande viagem no deserto:
o combate com a morte no campo da vida,
a travessia dos limites, a nebulosa dos olhos

não se ensurdeça o nosso coração
porque a luta noctuma com o teu Nome
nos deixou no corpo marcas

dá-nos a graça de atravessar o riacho da vida
mesmo coxeando;
que caminhemos com a ligeireza
e a elegância do animal
que busca o esplendor do verdadeiro
nas coisas provisórias

e que desse combate com as imagens
nos aproximemos do horizonte da tua casa
donde vejamos as sementes do amor cobrindo a eira,

Deus que ligas o céu e a terra no teu Filho Jesus
e no Espírito


José Augusto Mourão
In O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010



Meditar a Palavra



Evangelho segundo S. Marcos 7,24-30.

«Partindo dali, Jesus foi para a região de Tiro e de Sídon. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde passar despercebido, porque logo uma mulher que tinha uma filha possessa de um espírito maligno, ouvindo falar dele, veio lançar-se a seus pés. Era gentia, siro-fenícia de origem, e pedia-lhe que expulsasse da filha o demónio. Ele respondeu: «Deixa que os filhos comam primeiro, pois não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» Mas ela replicou: «Dizes bem, Senhor; mas até os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas dos filhos.» Jesus disse: «Em atenção a essa palavra, vai; o demónio saiu de tua filha.» Ela voltou para casa e encontrou a menina recostada na cama. O demónio tinha-a deixado.«


Comentário de São João Crisóstomo

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia, seguidamente Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja
Homília «Que Cristo seja anunciado», 12-13; PG 51, 319-320 (a partir da trad. de Delhougne, Les Péres commentent, p.127)


A oração humilde e perseverante


Uma cananeia aproximou-se de Jesus e pôs-se a suplicar-Lhe em grandes brados pela filha, que estava possuída pelo demónio. [...] Esta mulher, uma estrangeira, uma bárbara sem nenhuma relação com a comunidade judaica, o que era se não uma cadela indigna de obter que pedia? «Não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» No entanto, a sua perseverança fez com que merecesse ser atendida. À que era apenas uma cadela, Jesus elevou-a à nobreza dos filhos pequenos; mais ainda, cobriu-a de elogios; ao despedi-la, disse-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas» (Mt 15, 28). Quando ouvimos Cristo dizer: «Grande é a tua fé», não precisamos de procurar outra prova da grandeza de alma desta mulher. Vede como ela apagou a sua indignidade pela sua perseverança. E reparai igualmente que obtemos mais do Senhor pela nossa oração que pela oração dos outros.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Invictus por Philip French



Uma proposta cinematográfica



por Philip French The Observer, Sunday 7 February 2010 larger


Clint Eastwood scores yet again with a rousing tale of the moment when Nelson Mandela harnessed the power of rugby to unite South Africa


Morgan Freeman as Nelson Mandela in Clint Eastwood's Invictus. Photograph: Keith Bernstein

Clint Eastwood has been acting in movies for 55 years and directing them for 40. Astonishingly, in an industry that favours youth and discourages originality, he's been doing his best and boldest work in his eighth decade. It seemed he'd reached a creative zenith when he returned to his roots with the classic western Unforgiven in 1992. But since the turn of the century, he's made 10 immensely varied films, including a remarkable defence of euthanasia, Million Dollar Baby, the superb diptych of Second World War films, Flags of Our Fathers and Letters From Iwo Jima, a documentary on piano blues and a deeply felt story of a man rethinking his values in late middle age, Gran Torino.

Invictus
Production year: 2009Country: USACert (UK): 12ARuntime: 133 minsDirectors: Clint EastwoodCast: Julian Lewis Jones, Matt Damon, Matt Stern, Morgan Freeman, Patrick Mofokeng, Tony KgorogeMore on this filmNot all of these films have been particularly subtle, but each has been a fine piece of storytelling, and they've embraced in a generous, unsanctimonious manner a rare range of human sympathies and of characters, extending from an aristocratic Japanese general to blue-collar, Irish-American Bostonians.

The majestic Invictus, the most rousing movie about sport since Chariots of Fire, fits very much into this pattern. It's an account of the relationship between President Nelson Mandela and Francois Pienaar, captain of the South Africa team in the 1995 Rugby World Cup tournament. A manipulative, deeply emotional film, it's openly committed to a belief in the basic decency of mankind, unafraid of an accusation of sentimentality and unabashed in its inspirational aim of drawing people together in a form of communion.

The movie begins with a forthright image of a divided society in 1990. Just released from 27 years of incarceration, Mandela drives along a road that runs between two playing fields. On one side, ragged black kids play football on a dirt pitch between rusty goalposts; on the other, immaculately kitted-out white boys play rugby on a neatly tended grass pitch. The black kids shout excitedly as Mandela passes, the white lads' coach says: "This is the day our country went to the dogs."

The movie then leaps forward to Mandela's election as president in 1994. Settling into a terrifying task in which he seeks forgiveness and reconciliation, he first surprises his inherited staff by offering to keep them on. He then brings in hardline Afrikaners to join his black bodyguards. These scenes are beautifully handled, and although Morgan Freeman is no Mandela lookalike, he gets just right that slight stoop, the rolling gait and the slow, decisive speech, and is soon in authoritative command of the movie.

Crucial is the controversial decision to risk alienating his black followers by preventing the new sports council from abolishing the Springboks rugby team and its green-and-gold uniform. This leads to the positive move to bring the nation together in support of the team at the 1995 World Cup.

At two key moments, the movie has a forceful topicality. Before dawn on his first day in office, Mandela and his bodyguards make their way to the parliament in Pretoria and a van driver drops a pile of Afrikaans newspapers on the pavement in front of them. Mandela translates the headline: "He can win an election but can he rule the country?" The bodyguards bridle at the insult but Mandela remarks: "It's a legitimate question." This is the significant Barack Obama moment.

Later, when he decides to use the rugby championship for both moral and political purposes, he invites Francois Pienaar (an able and convincing performance by Matt Damon) to have tea with him. Pienaar, a middle-class man of conventional views, is the captain of a badly failing team, then in the process of returning to international rugby after years of exclusion during apartheid. To test whether he is the man for the great task he has in mind, Mandela asks him about his philosophy of leadership. To lead by example is his reply and we know, through the honest directness Damon embodies, that he is a man capable of moral growth.

At this point, we inevitably think of the current controversy over the status of John Terry's England football captaincy and are aware of what has been happening to professional sport and its practitioners. Interestingly, in the early days of apartheid, Alan Paton followed up Cry the Beloved Country with Too Late the Phalarope, the tragic hero of which is an Afrikaner rugby star whose life is transformed through an illegal affair with a black girl.

There are wonderful sequences in this film. Blunt but unforgettable is the visit Pienaar and his team make to Robben Island where Mandela was jailed for 18 years in appalling conditions. Pienaar tries to imagine what life was like there, and on the soundtrack Mandela reads "Invictus" , the short Victorian poem by WE Henley that ends with the couplet "I am the master of my fate/ I am the captain of my soul" that had sustained him in prison.

The final 45 minutes are dominated by a series of rugby games and it's splendid at last to have a change from American football. Offhand, I can only think of a small handful of rugby pictures: Lindsay Anderson's near-great This Sporting Life, which presents the game in an dispiriting light; Alive, where Uruguayan rugby players eat their dead team mates when stranded in the Andes; and Roger Vadim's La curée (aka The Game Is Over) in which Jane Fonda' seduces Peter McEnery, her rugby playing stepson. We have Eastwood to thank for making the match sequences lucid, lively, convincing and uplifting. Eastwood has also worked with his musician son Kyle to produce a remarkable soundtrack drawing on a wide variety of South African music.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


Deus vem buscar o homem. A beleza não é mais do que Deus que vem buscar o homem.
Tudo aquilo que é beleza no mundo é como uma encarnação. Em tudo aquilo que nos dá o puro sentimento do belo, há presença real de Deus.
A beleza é esta presença de Deus entre nós.

Simone Weil (1909-1943)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A MELODIA DA SALMODIA...

Cantai ao Senhor um cântico novo,
porque Ele fez maravilhas!
A sua mão direita e o seu santo braço
lhe deram a vitória.

O Senhor anunciou a sua vitória,
revelou aos povos a sua justiça.
Lembrou-se do seu amor e da sua fidelidade
em favor da casa de Israel.

Todos os confins da terra presenciaram
o triunfo libertador do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai.

Cantai hinos ao Senhor, ao som da harpa,
ao som da harpa e da lira;
ao som de cornetins e trombetas,
aclamai o nosso rei e Senhor.

Ressoe o mar e tudo o que ele contém,
o mundo inteiro e os que nele habitam.
Batam palmas os rios,
e as montanhas, em coro, gritem de alegria
diante do Senhor, que vem julgar a terra.
Ele governará o mundo com justiça
e os povos com rectidão.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Para meditar...

Evangelho segundo S. João 3,22-30

Depois disto, Jesus foi com os seus discípulos para a região da Judeia e ali convivia com eles e baptizava. Também João estava a baptizar em Enon, perto de Salim, porque havia ali águas abundantes e vinha gente para ser baptizada. João, de facto, ainda não tinha sido lançado na prisão. Então levantou-se uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, acerca dos ritos de purificação. Foram ter com João e disseram-lhe: «Rabi, aquele que estava contigo na margem de além-Jordão, aquele de quem deste testemunho, está a baptizar, e toda a gente vai ter com Ele.» João declarou: «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: 'Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.' O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.»


Comentário ao Evangelho do dia feito por :

Diádoco de Foticeia (c. 400-?), bispo
A Perfeição Espiritual, 12-14; PG 65, 1171 (a partir da trad. de Solesmes, Leccionário, t. 2, p. 151 rev.)

«Mas o amigo do esposo, que está ao seu lado [...], sente muita alegria»

A glória convém a Deus devido à Sua grandeza e a humildade convém ao homem porque faz dele família de Deus. Se assim agirmos, ficaremos alegres a exemplo de São João Baptista, e começaremos a repetir sem descanso: «Ele é que deve crescer e eu diminuir».

Conheço uma pessoa que ama tanto a Deus – embora se aflija por não O amar tanto como gostaria –, que a sua alma experimenta sem cessar este desejo ardente: que Deus seja glorificado nele e que ele próprio se apague. Um homem assim não sabe quem é, ainda que receba elogios, porque, no seu grande desejo de se humilhar, não pensa na sua própria dignidade. Cumpre o culto divino [...] mas, na sua extrema disposição de amor para com Deus, enterra a lembrança da sua própria dignidade no abismo do seu amor a Deus [...], apaga o orgulho que daí retiraria para nunca parecer, ao seu próprio julgamento, senão como um servo inútil (Lc 17,10). [...] É o que devemos fazer também: evitar todas as honrarias e todas as glórias por causa da riqueza transbordante de amor do Senhor que tanto nos amou.

Aquele que ama a Deus do fundo do coração é por Ele reconhecido. Com efeito, na medida em que acolhemos o amor de Deus no fundo da nossa alma, nessa mesma medida, temos o amor de Deus. É por isso que, de agora em diante, um tal homem vive numa paixão ardente pela iluminação do conhecimento, até que venha a saborear uma grande plenitude interior. Nesse momento, já não se reconhece a si mesmo, fica inteiramente transformado pelo amor de Deus. Um homem assim está nesta vida sem cá estar. Embora continue a habitar o corpo, sai dele continuamente, pelo movimento do amor da alma, que o transporta para Deus. Daí em diante, nunca mais pára: com o coração a arder no fogo do amor, permanece agarrado a Deus de forma irresistível porque, pelo amor de Deus, foi arrancado definitivamente à amizade para consigo mesmo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Família: herança de todos os tempos!

Quando assistimos a um filme de teor patriótico, é frequente vermos os líderes políticos das nações ameaçadas a apelarem às pessoas para “lutar pelas nossas famílias, pelos nossos filhos, pelos nossos valores”.

Apontar o caminho aos outros é menos custoso do que trilharmos um caminho comum de humanidade, porque este exige diálogo e respeito mútuos. Por vezes, propomos, apressadamente, o futuro como meta de esperança, mas esquecemos que é no presente e na invocação das memórias positivas do passado que uma identidade, uma instituição, uma pessoa, uma sociedade se constroem.

Facilmente decretamos o que se deve fazer, não deixando margem de manobra para uma decisão livre, responsável e madura das próximas gerações. Mais rapidamente nos aprontamos a determinar a vida futura dos outros do que a comprometermo-nos a cumprir o presente. Facilmente instauramos a ética do dever aqueles que vêm e pouca ética da responsabilidade à geração actual.

Por isso, a instituição família, célula vital de qualquer sociedade, é chamada a reflectir nos valores que a identificam enquanto comunidade de vida e de amor, enquanto espaço primeiro de sociabilização, de aprendizagem da solidariedade, da afectividade e da amizade. É aqui que se joga a construção de um mundo mais humano e justo. A identidade das gerações futuras será aquilo que os Homens de hoje lhes transmitirem e derem em herança.

Outrora a herança fora a honra, o dever, a verdade, mas também as barbaridades, as guerras, escravidão humana… E hoje, que legado deixamos e testemunhamos aos vindouros? Talvez esteja na hora de redescobrimos a identidade, os papéis, os deveres e os direitos de cada membro da família, para que esta se converta numa comunidade que vive em comunhão, onde as relações não se reduzem somente à sanguineidade, mas educam para uma cidadania global, capaz de ensinar homens e mulheres a serem concidadãos do mundo.

Neste sentido, talvez seja tempo de dar voz às crianças e de perceber o que é que elas esperam da família, do pai, da mãe, dos irmãos, dos avós… Talvez seja interessante perceber que as crianças sentem mais necessidade em ser amadas e acompanhadas do que em ter grandes coisas; de sentirem mais autoridade dos pais do que a sua indiferença rotineira; de perceberem que são elas as crianças e não os seus pais, a quem prestam, como filhos, obediência e respeito.

Talvez esteja na hora de perguntar aos jovens o que esperam da família neste séc. XXI, onde a oferta das novas redes sociais de comunicação parecem atrair muito mais do que os laços e rostos familiares. Talvez seja o tempo de lhes proporcionar espaços familiares diferentes, onde o PC, a PS3, a Net, o telemóvel e o PDA não substituem o encontro pessoal em família (férias conjuntas, ida ao cinema, teatro, passear, visitar familiares, ver um programa de TV em família, partilhar as novidades tecnológicas, rezar e participar na comunidade cristã…). É tempo de passarmos de relações (famílias) virtuais e tecnológicas a relações (famílias) humanas e próximas, de encontros entre rostos concretos, que, mesmo em dificuldades extremas, sentem a alegria de viver e de projectar sonhos e realizações.

Talvez seja o momento de os pais pararem e pensarem a sério na educação dos seus filhos… Facilmente se entrega o papel de educador a outras instituições, como a escola, o futebol, o grupo de amigos, numa plena demissão daquilo que é específico de um pai e de uma mãe, que é educar os filhos para uma vida e cidadania responsáveis, de serviço, de entrega às grandes causas da existência humana. Talvez tenham de aprender a ser pais! Pois, para educar, é preciso testemunhar uma relação sadia, dialogante e verdadeira entre esposos que contagie toda a família, de tal modo que os filhos possam dizer: “vê-de como eles se amam”.

Talvez esteja na hora das famílias serem mais família, sem pensarem só e exclusivamente no sucesso e na felicidade dos seus membros, mas de sentirem que há outros valores que fundamentam e estruturam a vida, como o amor simples e concreto, a verdade, a justiça, a amizade, a fé, a fraternidade, o compromisso, o serviço social. Não basta apelar, é preciso vivê-los, e a família é esse espaço privilegiado onde se “coze” a sociedade futura. Sem esta experiência de comunidade de vida, de amor e de fé, todo o resto se desmorona e caí com o sopro do vento.

Se é verdade que estamos na era tecnológica e digital, de comunicações instantâneas, também é um facto que, mais do que nunca, pais e filhos, família e sociedade são chamados a trilhar um caminho de permanente e comum humanização das suas relações. Só assim conseguiremos fazer do futuro um encontro feliz de gerações que vivem de uma memória, de histórias, de acontecimentos e de pessoas reais que, em todos os tempos, vão esculpindo um admirável mundo novo.

João Paulo Costa

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Porque vale a pena ver Avatar?



Avatar
Este filme vai salvar Hollywood?



"Avatar está a ser escrutinado como poucos filmes o foram na história do cinema: porque é o primeiro de James Cameron desde "Titanic"; porque é o primeiro "blockbuster" sério a explorar a fundo o 3D digital. E há até quem coloque nos seus ombros o manto da salvação de uma indústria em crise. Eis o desafio: sente-se e espere uma experiência que não é possível viver a não ser numa sala de cinema.

A pergunta não tem sido posta desta maneira tão óbvia. Mas é essa a questão na cabeça dos observadores: será o novo filme de James Cameron o "oráculo" que pode apontar a saída para a crise que Hollywood enfrenta?
E porque o seria? Primeiro, porque é a primeira longa-metragem do realizador canadiano em doze anos, desde "Titanic" (1997) que, com quase dois milhares de milhões de dólares de receitas, se tornou no filme de maior sucesso de sempre.
Porque, depois, é o filme mais ambicioso a tirar partido da nova tecnologia de 3D digital - e o primeiro, que não é uma animação nem um filme de género, a pretender usar a técnica como algo mais do que simples "truque" de feira para chamar audiência, mas antes como uma janela para um universo criativo.

Porque, enfim, Cameron é um visionário que, de cada vez que filma, expande as fronteiras do que a tecnologia permite (bem como a dimensão das úlceras dos estúdios). Para "Avatar" criou um novo sistema de câmaras tridimensionais e refinou a tecnologia de "performance capture" que permite transformar em animação digital o registo do movimento e da expressão facial dos actores - chutando para canto as tentativas de Robert Zemeckis em "Polar Express", "Beowulf" ou "Um Conto de Natal".

Mas, sobretudo, porque Hollywood, ela própria, não sabe bem para onde se virar para manter o seu estatuto de fábrica de sonhos. E, ao entregar-se nas mãos de Cameron, cineasta gloriosamente incontrolável que escreveu "Avatar" há quinze anos e preferiu guardá-lo na gaveta até a tecnologia lhe permitir cumprir a sua visão, não há garantias que a salvação que procura esteja ao seu alcance. Porque, como o próprio disse à Associated Press, quanto mais alto for elevada a fasquia das expectativas, maior pode ser a desilusão.

Crise 2009

Dizer que Hollywood precisa de ser salva parece uma afirmação lírica. Os números de bilheteira americanos são escrutinados meticulosamente ao longo do ano e, apesar da oscilação dos comentadores entre a previsão da catástrofe e os elogios triunfalistas, todos os anos se batem recordes de receitas e de espectadores.
Mas, por trás dos triunfos globais de "blockbusters" descartáveis como "2012" ou "Transformers: Retaliação", ou dos êxitos de produções modestas como "A Ressaca", "Distrito 9" ou "Actividade Paranormal", a crise não passou ao lado da indústria.
Os fundos de investimento globais, uma das mais fiáveis fontes de financiamento nos últimos anos, reduziram o investimento ou fecharam a torneira. O mercado do DVD, uma das maiores fontes de receitas, entrou em queda e a transição para o formato Blu-Ray está longe de compensar o dinheiro perdido. As seis grandes "majors" hollywoodianas reduziram o seu volume de estreias anuais, fecharam ou venderam divisões especializadas ou menos rentáveis, entraram em contenção de despesas e fizeram despedimentos em larga escala. E, pior, os "blockbusters" têm-se estampado. 2009 foi um ano negro para duas das seis grandes, a Universal e a Disney, que substituiram prontamente as suas direcções criativas.

O que complica tudo é que, hoje, a regra é um filme de Hollywood lucrar um terço da sua receita em sala, um terço no circuito internacional e um terço em DVD, fora os valores astronómicos investidos no "marketing". Se o terço do DVD se vem abaixo e e se o filme não rende em sala? Houston, temos um problema.
Ainda não começámos sequer a falar da oferta televisiva entre canais generalistas e de cabo e a disponibilização de programas online, do "home cinema" (apesar de tudo, é mais barato ficar em casa a ver um DVD no LCD do que meter-se no carro para ir ver um filme ao multiplex), ou da partilha de ficheiros online que tanto disponibiliza clássicos que não se vêem nas salas ou encontram em DVD como versões pirateadas dos novos lançamentos em sala.

No meio desta paisagem, "Avatar" é, visto por um prisma, o sonho de qualquer estúdio: uma experiência cinematográfica que não é possível viver a não ser numa sala de cinema. Um filme realizado por um cineasta de sucesso garantido, que inventou uma nova maneira de criar efeitos visuais, que força os limites da tecnologia. Em rigor, a narrativa de "Avatar" não precisa do 3D para nada: um ex-Marine paraplégico descobre uma razão para viver através do "avatar" que controla no distante planeta Pandora junto dos Na'vi, povo que vive em harmonia com a natureza e que ele acaba por liderar numa revolta contra os humanos que querem explorar as riquezas naturais do planeta. O 3D introduz apenas uma dimensão extra no universo visual que justifica em absoluto o deslumbramento.

Mas, por outro prisma, "Avatar" é o pior pesadelo de qualquer estúdio: não tem uma estrela de primeira grandeza a transportá-lo (Sigourney Weaver tem apenas participação especial), não é uma sequela, não se baseia numa personagem de BD, e custou tão caro que é legítimo perguntar se alguma vez recuperará o investimento (fala-se de 500 milhões de dólares entre rodagem, pós-produção e "marketing", número que a Twentieth Century-Fox já desmentiu como "ridículo" e que fontes põem mais próximo dos 250 milhões). E é este filme que vai salvar Hollywood?

Armas secretas

A "arma secreta" de "Avatar" são duas. Uma chama-se "3D digital". A outra chama-se "fé".
O cinema em 3D ainda tem a reputação de truque de feira que ganhou quando surgiu pela primeira vez nos anos 1950, com os óculos baratos de duas cores que davam uma dor de cabeça desgraçada ao espectador. A técnica foi abandonada ao fim de um par de anos. Até que a tecnologia de projecção digital permitiu resolver o problema: hoje, o 3D é mais agradável para o espectador, que adiciona alguns milhões de dólares ao orçamento de um filme mas permite igualmente aos estúdios e aos exibidores cobrar uma sobretaxa no bilhete para cobrir o aluguer e manuseamento dos óculos. Ou seja: como o bilhete é mais caro, o estúdio e o exibidor ganham mais e, por conseguinte, lucram mais.
É esse lado pragmático, financeiro, que explica porque é que a indústria está tão interessada em impôr o 3D: uma fonte de receitas que pode representar a diferença entre ganhar ou perder dinheiro - razão pela qual Francis Coppola é um céptico do formato.

No entanto, até agora, a tecnologia tem sido maioritariamente restringida a produções específicas, filmes-concerto, animação e filmes de terror, usada como truque visual. Se, na animação, "A Idade do Gelo 3" e "Altamente" confirmaram que a técnica, bem usada, pode ser mais do que isso, "Avatar" é a primeira tentativa de aplicar a tecnologia a um filme "sério" - e o seu sucesso poderá abrir as portas à utilização da técnica como mais uma ferramenta na caixa dos realizadores em vez de um "gimmick" visual de vida efémera ou uma técnica limitada a géneros específicos. Cameron usa o 3D como janela para o universo de Pandora, como um modo de reforçar os seus cuidadíssimos efeitos visuais; mais do que "épater le bourgeois", a ideia é tornar este universo tão fotorrealista como o mundo lá fora. E, no processo, possibilitar um retorno ao ponto zero do maravilhamento que o cinema criou nos inícios.

Cameron é a primeira pessoa a admiti-lo, como disse a Dana Goodyear, da revista "The New Yorker": "A ironia é que as pessoas pensam [em "Avatar"] como um filme em 3D e a discussão não passa daí. Mas penso que, quando o virem, essa discussão desaparece. A tecnologia é suficientemente avançada para desaparecer sozinha" - e apenas ficar a história que ela serve. E tem razão: a proeza técnica esbate-se à medida que o filme avança.



É isso que justifica a "fé" como arma secreta - fé da Fox em que Cameron seja capaz de cumprir o que prometeu: fazer um filme capaz de recuperar esse deslumbramento primordial de ver qualquer coisa que nunca se conseguira ver antes. E, sobretudo, também fé em que Cameron consiga com "Avatar" um novo "Titanic", um filme de tal maneira abrangente no seu "código genético" que toda a gente o queira ir ver.

Não é, por isso, casual que o próprio Cameron, numa entrevista com Geoff Boucher, do "Los Angeles Times", tenha alinhado "Avatar" com filmes como "Danças com Lobos" (Kevin Costner, 1990), "A Floresta Esmeralda" (John Boorman, 1985) e "A Brincar nos Campos do Senhor" (Hector Babenco, 1991), ou invocado o nome de escritores clássicos como Rudyard Kipling, Edgar Rice Burroughs ou Joseph Conrad. O que filmou, na realidade, é a história de uma viagem iniciática numa outra cultura dobrada de redenção e redescoberta - Jake Sully, o Marine interpretado por Sam Worthington, transita da cultura guerreira humana para a cultura guerreira Na'vi através de uma série de rituais de passagem claramente inspirados pelas aventuras exóticas que fizeram sensação nos primeiros tempos do cinema.

A esse nível, então, "Avatar" é uma jogada triplamente arriscada. Não apenas usa uma técnica de um modo como nunca foi usada antes como o faz num filme que invoca uma herança criativa esquecida, e, sobretudo, implica um colossal investimento financeiro que repousa nos ombros de um cineasta incontrolável. Cameron trabalha dentro de Hollywood, sim, mas nos seus termos: "Exterminador Implacável 2" (1991) foi o primeiro filme a ultrapassar os 100 milhões de dólares de orçamento, "Titanic" o primeiro a passar os 200 milhões - de tal maneira que a Fox se viu obrigada a encontrar um parceiro de financiamento e Cameron abdicou do seu salário para garantir controle criativo (depois do êxito, a Fox restituiu-lhe o dinheiro).

Depois do triunfo de "Titanic", nenhum estúdio ousaria restringir Cameron. Mas uma indústria com histórias de horror de realizadores megalómanos ("As Portas do Céu", de Michael Cimino, "enterrou" a United Artists em 1980) não se pode sentir à vontade ao colocar uma aposta tão forte como "Avatar" nas mãos de um dos raros cineastas que é impossível controlar.
Sejamos honestos: com toda a atenção que tem gerado, dificilmente "Avatar" será um desastre de bilheteira, e convirá não esquecer que 2009 tem provado ser um ano de ouro para a ficção científica - a "space opera" pós-moderna de "Star Trek" (J. J. Abrams, 2009) e a sátira sociopolítica de "Distrito 9" (Neill Blomkamp, 2009) ressoaram com audiências globais de modos improváveis. "Avatar" cruza esses ângulos e mais, numa espécie de "megamix" dos "greatest hits" dos filmes de aventuras siderais.

Mas, como se costuma dizer, "cada caso é um caso". E convém sempre recordar as palavras sábias do grande argumentista William Goldman: em Hollywood, ninguém sabe nada. Só acham que sabem. E é por isso que "Avatar" pode não salvar Hollywood. Mas da reputação já ninguém o livra.
E as expectativas? Talvez seja melhor deixá-las em casa.

Jorge Mourinho, Ípsilon.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Arte

Representações do Natal na arte cristã


Nascimento de Jesus (séc. IV, Milão)

A cena da natividade, o nascimento de Jesus há 2000 anos, é das representações mais emblemáticas na arte cristã. A profundidade do acontecimento marcou e continua a marcar gerações, apesar de tantas invasões de outras figuras quer por afastamento da realidade central do Natal, quer por interesses comerciais.

Adoração dos Reis Magos (Séc. IV, Roma)

Até à Idade Média, a cena da natividade mantém os elementos comuns. A presença de Maria, sentada com o Menino sobre os joelhos, o Menino envolto em ligaduras, a presença de José, pensativo e aparentemente apartado da cena central com gesto de apreensão. A partir da Idade Média, alguns factores irão ter influência nestas representações. A espiritualidade da época vai reflectir-se numa tendência humanizante que se começa a sentir nestas representações.

É a partir do século XIV que surgem os motivos para a representação individualizada do Menino Jesus. A cena da natividade continua presente, mas com outras pretensões. Maria adora o Menino, José é representado em adoração com aspecto ancião.

No século XV, a individualização da imagem do Menino é clara. É apresentado nu, normalmente de pé e com o globo na mão. A cruz é um elemento comum, estabelecendo um paralelismo entre a natividade e a Paixão.

Domenico da Tolmezzo (séc. XV)

No século XVI assiste-se a um enorme desenvolvimento. O Menino aparece em variadíssimas atitudes. De pé, prosseguindo os esquemas anteriores, deitado sobre a cruz ou simplesmente adormecido, sentado. Começam as produções de adereços associados ao culto individualizado do Menino Jesus. Os adereços, como as camas, as cadeiras, as vestes extraordinariamente elaboradas, tudo muito ao gosto e modas da época, irão ser uma marca até aos dias de hoje.

Dirck Barendsz (séc. XVI)

Ao longo dos séculos XVII e XVIII chegam até nós inúmeros e ricos exemplos destas características associadas ao culto do Menino e à expressão devocional.

Paul Gaugin (séc. XIX)

A graciosidade com que as imagens do Menino são apresentadas corresponde, em muitos casos, aos desejos dos encomendadores. Em todo o caso, nos vários tempos e épocas culturais, a figuração do Menino, apela à consciência de que o Céu desce e toca a terra, toma a nossa condição, aparece segundo os nossos gostos e perspectivas para nos elevar e projectar na medida divina.

Gaudí (séc. XX)

Desde cedo a arte cristã usou a imagem do Menino para transmitir a mensagem evangélica, mas, acima de tudo, com carácter celebrativo. A imagem associa-se à celebração da fé, à vivência dos sacramentos e à projecção, na vida dos cristãos, desses acontecimentos da revelação. A figura de Cristo, representada inicialmente através de múltiplos símbolos e variados modelos iconográficos, ganha um relevo imprescindível.

P. António Pedro Boto
Director do Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa
In Correio da Manhã
25.12.09

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

17 maneiras de rezar

17. Trabalhar com as próprias mãos

Trabalhar com as próprias mãos
em tarefas caseiras, na costura,
no seu ofício, na bricolagem
e fechar o rádio e todo o zunzum interior
escutar o que fala sem palavras
enquanto as mãos se ocupam
e ocupam a superfície da alma.
Ou então, conduzir um automóvel
muito distendido, atento, delicado
uma vez que essa ocupação deixa livre
um pensamento sem pensamento
que amadurece algures.


16. Nem as imagens nem o texto

Nem as imagens, nem o texto,
nem o lugar, nem a hora
nem a palavra que brota do coração
nem a repetição aborrecida e atenta
nem mesmo o silêncio
mas simplesmente o real
terrivelmente real e chão, as coisas, a superfície
a conversação sem finalidade
as tarefas, os lazeres,
comer, sonhar, dormir
e o sofrimento intolerável, indizível
de tal modo sofredor que nem sofremos
a espera nua do que deve vir ao mundo
para que a terra seja como o céu.

15. Duvidar, duvidar de Deus intensamente

Duvidar, duvidar de Deus intensamente
o quê, haverá um Deus bom e todo poderoso
com toda esta crueldade na natureza
com a infernal crueldade humana
as crianças morrendo de fome, os explorados,
os nevróticos, os embrutecidos, os alcoólicos, todos os [resíduos humanos?
É bela, a imagem de Deus!
E o que é Deus
senão pobre pequena ideia elaborada
no planeta em que somos
nada, no seio do universo brilhando
para dimensões inimagináveis
Objecções, objecções, agonia de Deus
no coração do homem de fé.
Ele respondeu cem vezes, mas trata-se de ausência
Pobre Deus em agonia
como o Verbo idêntico a Si no jardim das oliveiras
enquanto os seus melhores amigos dormiam…
Não é realmente nada pouco vigiar. Na sua agonia.

14. Sair da igreja

Sair da igreja
deixar a celebração
porque não se aguenta mais
porque não podemos continuar
por causa do excesso de intensidade e de sobranceria
do que é considerado dever aí ser feito
em contraste com o desaire aflitivo do que de facto se passa
deixar sem escândalo, sem contestação, com tristeza
e o desejo resistente que de novo se eleve
como? como?
a luz do grande poema onde se inauguram todas as coisas.

13. Permanecer em paz

Permanecer em paz
que é a harmonia dos poderes
para lá (certamente) do turbilhão
para lá da abstenção serena
para lá do abandono voluntário dos heróis
na harmonia dos poderes
coincidindo com a mais humilde humildade
isto, na mediocridade dos dias
sem altivez, sem saber e algumas vezes sem graça.

12. Ouvir música

Ouvir música
A Missa em Si menor de Bach, por exemplo,
especialmente Incarnatus, Crucifixus, Resurrexit
ou então outra coisa
não necessariamente música religiosa
mas escutar na profundidade
escutar o canto do novo Orfeu presente
em toda a música humana
incarnação, crucifixão, jubilação
Se pudermos cantar nós mesmos e tocar um instrumento,
é ainda melhor!

11. Escrever

Escrever
por prazer, por gosto, para ver
escrever para escutar o que o barulho comum encobre ou confunde
incluindo o barulho das palavras
Lavar as palavras até que elas fiquem
completamente puras e redondas e lisas
ou então ir pelos caminhos abundantes
ou então refazer, refazer indefinidamente
para abordar um pouco mais o que falta e insistir
escrever para chegar àquele ponto
que comunica com o que está para além e aquém de toda a palavra.

10. Desejar, desejar desesperadamente

Desejar, desejar desesperadamente
desejar até à dor e à angústia
até ao grande vazio amargo
desejar que seja de outro jeito
desejar o fim das crueldades
das loucuras, da estupidez, do abjecto,
desejar a satisfação, a luz, a ternura
ter muita fome, ter muita sede
do mundo diferente
e de si-mesmo diferente.

9. Abrir a Sagrada Escritura

Abrir a Sagrada Escritura
e aí está!
Não é um livro, não é o Livro,
é o lugar da Palavra que se estende para além das palavras
sonho sem sonho à margem do texto
ressonância através de todas as espessuras da vida
fonte cuja nascente é invisível,
pensamentos, imagens, palavras
movimentos sóbrios do coração
a Letra é necessária
o espírito vai
porque o sentido da Escritura é a vida salva.

8. Conversar disto e daquilo

Conversar disto e daquilo
e de repente
sem Deus ou sem eu o prever
acontece que nos pomos a falar do essencial
da vida, da morte, do futuro da humanidade
do amor, da verdade
talvez de Deus ou talvez não,
da religião cristã, dos grandes caminhos do homem.
Alargamos a conversa a outros, sem ódio,
sem controvérsia, sem baixa paixão, mas porque isso importa mais [que tudo o resto
e porque falamos disso tão poucas vezes
na conversa aquele que em Jesus Cristo
deixa passar algo do Anúncio
não porque se crê obrigado
mas porque ele é como é, ele está nele,
a sua palavra transporta a Palavra
e pode acontecer que alguém escute
pois o fundo do coração está aberto

7. Como uma criança, dizer coisas a Deus

Como uma criança, dizer coisas a Deus
oração, súplica, raiva ou ternura
pesar ou júbilo
isso escapa
nem nos apercebemos disso
senão mais tarde, algumas vezes.
Aquele que assim fala em nós é a criança
sempre na aurora da vida
ingénua como a vontade divina.

6. Dormir

Dormir
e deixar o coração de vigia.

5. Angustiar-se profundamente por não rezar

Angustiar-se profundamente por não rezar
gemer interiormente todo o dia por ser incapaz
da mais pequena invocação
da mais pequena leitura
mesmo do Evangelho
de se sentir frio, seco, ausente
e feliz num outro lugar
sem Deus, sem Cristo, sem tudo isso
e sofrer justamente por isso
e finalmente decidir entregar-se assim a Deus
e esperar, sem qualquer pensamento.

4. Exprimir um pedido do Pai Nosso

Exprimir um pedido do Pai Nosso
só um,
uma só vez.

3. Abrir a Sagrada Escritura

Abrir a Sagrada Escritura
abrir o Livro somente
e partir em devaneio
imaginar o seu próprio livro
contar histórias a si mesmo
remexer nos seus velhos mitos
de crueldade, de triunfo, de sensualidade, de desespero,
de amor, de caridade, com o normal narcisismo dessas coisas
e ler, no texto,
duas palavras.

2. Ler um livro

Ler um livro de pensamento exigente
com um forte desejo da verdade
sem avidez em saber
sem pretensão de disputar
mas por gosto, por amor da verdade
Abrir a porta profunda
a todo o pensamento que emerge
e deixá-lo permanecer em paz
de modo que ele venha a dar o seu fruto.

1. Caminhar

Caminhar ao longo de todo o comprimento
numa igreja românica, bela, bastante grande
Saint Philibert de Tournus, por exemplo,
ou numa igreja gótica,
Chartres, Reims, Bourges
ou barroca, como Wieskirche
e não pensar em nada,
absolutamente nada,
deixar vaguear o olhar
deixar cantar a pedra,
deixar que o lugar fale,
e partir, algum tempo depois e sem nenhuma pressa.


Maurice Bellet
In Cahiers pour croire aujourd'hui, Novembro 1993)
Trad.: MLPV/JTM
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Lugares Teológicos


Viagens com o Messias

Michael Belk já colaborou com a Calvin Klein, e as suas imagens aparecem nas revistas Vogue, GQ e Vanity Fair. Mas ele considera que o seu melhor trabalho até hoje é uma nova colecção de fotografias protagonizadas por Jesus.

As imagens pretendem recontar a história de Cristo para o público do século XXI. Tiradas em Matera, Itália, na mesma região em que foi filmada «A Paixão de Cristo», as fotografias ilustram narrativas bíblicas, tendo como pano de fundo questões contemporâneas, como a pobreza e o materialismo.

No vídeo seguinte, Michael Belk explica as suas motivações (em inglês); são também apresentados excertos das fases de produção.



sábado, 19 de dezembro de 2009

IV Domingo do Advento


«Feliz de ti que acreditaste»

Aproxima-se a festa do Natal.
É tempo de colocar novamente a pergunta: como temos nós preparado este nascimento, ou melhor, este aniversário de nascimento do menino Jesus? Que balanço de fé fazemos deste tempo de preparação espiritual e humana?
A liturgia do I Domingo do Advento centrava-se na esperança de um libertador (“andais com muitas preocupações… orai e vigiai para não serdes surpreendidos”)
O II Domingo revelava o Deus que vem salvar o Homem, centrando-se na mensagem do Baptista (endireitai e preparai os caminho…).
O III Domingo convidava-nos à alegria de uma vida em Deus, não uma alegria de sorriso “Pepsodente”, mas de quem acredita no projecto de Deus (Que devemos nós fazer?).
Neste IV Domingo do Advento, a liturgia apela para um encontro muito especial, onde Maria e Isabel têm um papel preponderante. Convida-nos à fé: «Feliz de ti que acreditaste», dizia Isabel a Maria.
Estamos no domingo derradeiro que antecede a vinda do Messias… Segundo o Evangelho de S. Lucas, Maria, sabendo que Isabel ia dar à luz, “pôs-se a caminho” e “correu ao seu encontro”… As duas mulheres grávidas saúdam-se; porventura, falam da nova etapa das suas vidas: a beleza da maternidade, o dar à luz a vida que trazem no seu ventre, as maravilhas que Deus nelas operou, como reagiriam as outras mulheres da Judeia, a reacção dos seus maridos e da sociedade a esta notícia…

Mas este encontro tem acontecimentos curiosos: à saudação de Maria, o menino de Isabel “saltou-lhe de alegria”. O encontro de duas mães estabelece diálogo e a relação entre os filhos, neste caso João Baptista e Jesus… João será aquele que anunciara a vinda eminente de Jesus, enquanto este, homem e Deus, faz o menino João «saltar de alegria» no útero de sua mãe e dá cumprimento às suas profecias.

Deus não actua sozinho… Maria e Isabel são instrumentos da sua salvação… É um Deus humano, que vem ao encontro do Homem, propor-lhe novos caminhos, surpreendes, cheios de vida, que brotam da geração de novos filhos.

Maria e Isabel poderiam ter recusado o dom da maternidade, ao ponto de abortar… À luz da tradição do seu povo e da lei, Maria arriscou em demasia… José, a princípio, não acreditou como poderia ser isso possível… Fica confuso face a Maria, e perturbado, com os comentários do povo… Mas eis que Deus providenciará os melhores caminhos…

Por isso, a liturgia de hoje é um apelo à maternidade como dom de Deus. Só as grávidas conseguem entender as dores e as alegrias da maternidade (ver o blog onde mulheres grávidas partilham a sua vida, as dúvidas, a alegria…). Maria e Isabel saudaram-se, acolheram-se, partilharam a mesma situação e deram graças a Deus: “bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. Não discutem que fraldas vão comprar, que roupa hão-de vestir ao menino, que vitaminas ou vacinas têm que tomar contra a gripe , as infecções… Nascem pobres, frágeis. O Deus-Menino nasce numa manjedoura, numa gruta de Belém, pobre e humilde… Mas mesmo assim, Maria e Isabel rejubilam porque irão dar à luz um filho, cada uma na sua pobreza e fragilidade humanas, que tem em Deus a sua origem. Sabem que eles não exclusivamente seus… Ambos são dom de Deus, como são todos os filhos, com uma missão muito especial… Eles são fruto do amor humano e do amor incondicional de Deus… Homem e Deus unidos geram vida, aceitação e alegria…

Ambas exultam de alegria por serem mães: “o menino exultou de alegria no meu seio”… Não consta que neste tempo houvesse já ecografias detalhadas, mas a presença de Deus nesta mulheres alegres, revelou o resultado de uma felicidade quem está mais em dar do que receber, mesmo sabendo das dores do parto. Afirma Erri de Luca: “É de Maria o nascimento e só depois será do mundo e se tornará um dia santo dentro de um calendário”. Como é de qualquer mãe o nascimento de um filho. As mães sentem o batimento e movimento dos seus filhos. Maria percebe que ele fruto de uma relação diferente. Sabe que Ele vem do acreditar que a “Deus nada é impossível”. Ele é dom porque é fonte de bênçãos para todos… Só assim Maria perceberá mais tarde a resposta de Jesus: “quem tiver feito a vontade do meu pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã, mãe”. E Maria é mãe, porque assumiu o “fiat”, o faça-se a Tua vontade”, com confiança, com dor, alegria e amor.

Como vemos, a vinda do Menino Jesus revela a alegria de duas mães… Hoje é frequente nos casais mais novos os filhos serem por vezes um peso e não fonte de alegria (ou porque já não há tempo para ir ao cinema, passear ao fim-de-semana, ou porque dá muito trabalho…). É tempo de perguntarmos onde está a nossa felicidade e como a construímos? O sociólogo, Moisés Espírito Santo, no Jornal de Notícias de ontem, dizia que o “eu”, a “felicidade individual” substituiu Deus, o mesmo significa dizer, estamos escravos da materialidade, vivemos em função de uma felicidade virtual, televisiva, que ilude a nossa própria forma de ser e de existir. Uma felicidade que não passa somente pelo encontro virtual dos telemóveis, das redes sociais da Internet, mas pelo tocar, pelo sentir da presença do outro diante de mim.

Será que acontece o mesmo connosco, cristãos, que celebramos a festa da vida no Natal? Como educar as crianças e jovens para a importância do encontro familiar, da simplicidade e da fraternidade se, por vezes, a única preocupação que temos é a de dar a melhor prenda, e, às vezes, até com alguma consternação (é pá, já é Natal, e ainda não comprei nada para o meu afilhado?) Não seria mais importante simplesmente a presença alegre e encontrarmo-nos uns com os outros, fazendo das prendas apenas um gesto simbólico e simples do amor? O amor simples é o mais complicado porque exige genuidade e não artificialidade. Será que, como cristãos, estamos também imbuídos neste espírito de Natal exclusivamente comercial? Se sim… isso é um grande contra-testemunho da nossa própria essência… E como existir se estamos em permanece contradição com aquilo em que acreditamos? A carta aos Hebreus dizia: “ao entrar no mundo, Cristo disse: não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formastes-me um corpo”. Por vezes, a vida revela-se um enorme sacrifício, pesado, porque não brota da sinceridade do nosso coração.

Se acreditamos num Deus feito carne, presente em Jesus Cristo, onde está a nossa felicidade? Em alcançar grandes níveis de vida à custa do sofrimento de terceiros? Maria e Isabel escolheram uma felicidade simples, atraente e partilhada: acolher a maternidade, gerar vida nova, acreditando num Deus libertador, salvador, alegre e próximo da humanidade. Por tudo isso, Maria é bendita entre mulheres porque teve a coragem de carregar no seu ventre um menino que hoje se faz presente na nossa vida… E porque Maria teve a fé suficiente para dar graças a Deus por tudo quanto lhe aconteceu: “a minha alma glorifica o Senhor e o meu Espírito se alegra em Deus meu Salvador”. Como diz um pensador: “As orações não mudam Deus. Mudam quem reza” (Soren Kikegaarden). É nessa linha que se encontra Maria.

À luz da Palavra, continuemos a exercer a caridade e o amor, recolhendo e distribuindo pelas Instituições que ajudam os mais desfavorecidos, ou pelas pessoas que conhecemos e necessitam da nossa fraternidade… Maria, sabendo da situação de Isabel, pôs-se a caminho e saudou-a. Coloquemo-nos a caminho e façamos uma visita fraterna aos homens e mulheres que gritam por amor e esperança.
Acreditemos que Ele, o Deus-menino, «será a Paz», segundo a fé do profeta Miqueias, para todas as nações.

João Paulo Costa

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Pensamento...


Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Peça de Teatro




Breve Resumo da História de Deus



D. Manuel Clemente



"Um breve sumário da história de Deus levado à cena no Teatro Nacional São João do Porto, quase a findar 2009… Um momento também, para nos surpreendermos com o enunciado. De facto, é muito desproporcional. Da palavra imensa que é “Deus”, com tudo o que evoca e ainda mais o que adivinha, à limitação de semanas, em espaço definido. Espaço cenograficamente “concentrado” e em penumbra na maior parte do tempo breve, até irromper o tempo todo, abrindo‑se a luz e finalmente a porta.


Valha‑nos o facto do espaço nos integrar a nós, actores ou espectadores, com a natureza de novo imensa de cada um. Encontramos então o arco em que tudo acontece, de imenso a imenso, através das mediações do espaço e do tempo. Aqui, agora, num teatro do Porto. Quase só o génio de Gil Vicente nos podia situar assim, tão desmedidamente afinal.


Conhecemo‑lo: de auto em auto, lá desfilam todos e a tratar de tudo. Figuras celestes, as mais sublimes, e retratos terrestres, os mais comezinhos, dignos ou risíveis. Trechos de ritual, até nalgum latim da escrita, e apontamentos do linguajar corrente, como se não estranhava ainda nos serões da corte. Já com razões modernas, de cristianismo reformista, em que Mestre Gil se dizia e comprometia; e conservando ainda a integralidade medieval de culto e cultura, em que tópicos bíblicos e lugares da altura se encontravam bem numa ambiência só, misturando figuras dos dois Testamentos com gente contemporânea do autor e acontecimentos de “actualidade”. Mas a história era “de Deus” e brevemente sumariada. Como se fosse possível e como Gil Vicente acreditava ser. – Donde a ousadia? Vivo hoje, responderia apenas: – Creio assim!


O seu cristianismo traz a religião para a história humana, como acontece. Não parte da eternidade para a história, reconhece na história o sinal que a alarga. E, precisamente, no que
haja de mais circunstancial e episódico, também mais autêntico. É por isso que nos faz rir ou chorar e nunca nos deixa indiferentes, meio milénio depois. É de nós que Gil Vicente trata, como se nos conhecesse já. Ou melhor, porque já nos conhecia, naquilo que transportava em si da humanidade comum. Por isso é um humanista de primeira e é primeiramente um humanista, situando‑se naquela verdade que no sumário de cada ser humano se distende infindamente, como em Deus.


Deus faz‑se história porque encarna, sabia‑o Gil Vicente. E faz‑se breve, sumaria‑se, porque, vivendo inteiramente cada momento, aí mesmo realiza a sua integralidade. Sua e nossa, porque de relação se trata: criação, queda e recriação, de Adão a Cristo, tudo se re(con)duz, quando Adão somos nós.


O resto da história também nos pode sumariar brevemente. Mas só quem o sabe o vive e só quem o vive o sabe e pode dizer escorreitamente, como Gil Vicente aqui. Como Nuno Carinhas e os seus colaboradores e actores o retomam espectacularmente agora, sumariando‑se também. Num trabalho de profunda e só assim belíssima coincidência com a escrita e a alma do mestre dos autos de el‑rei.


Tudo fica breve, porque mais seria excesso. Tudo fica dito, porque basta para entrever. Da
história de Deus, abrindo eternidade no tempo, só se pode falar como entrevisão. E assim é arte. Espantosa ocasião de nos espantarmos de nós. Entre figuras e sentenças, Gil Vicente reencontrou‑nos. Na mesma história afinal.
Por alguns dias, num teatro do Porto, o breve
sumário de tudo…" •






Em exibição até 20 de Dezembro no Teatro Nacional S. João...