quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010



Meditar a Palavra



Evangelho segundo S. Marcos 7,24-30.

«Partindo dali, Jesus foi para a região de Tiro e de Sídon. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse, mas não pôde passar despercebido, porque logo uma mulher que tinha uma filha possessa de um espírito maligno, ouvindo falar dele, veio lançar-se a seus pés. Era gentia, siro-fenícia de origem, e pedia-lhe que expulsasse da filha o demónio. Ele respondeu: «Deixa que os filhos comam primeiro, pois não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» Mas ela replicou: «Dizes bem, Senhor; mas até os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas dos filhos.» Jesus disse: «Em atenção a essa palavra, vai; o demónio saiu de tua filha.» Ela voltou para casa e encontrou a menina recostada na cama. O demónio tinha-a deixado.«


Comentário de São João Crisóstomo

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia, seguidamente Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja
Homília «Que Cristo seja anunciado», 12-13; PG 51, 319-320 (a partir da trad. de Delhougne, Les Péres commentent, p.127)


A oração humilde e perseverante


Uma cananeia aproximou-se de Jesus e pôs-se a suplicar-Lhe em grandes brados pela filha, que estava possuída pelo demónio. [...] Esta mulher, uma estrangeira, uma bárbara sem nenhuma relação com a comunidade judaica, o que era se não uma cadela indigna de obter que pedia? «Não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.» No entanto, a sua perseverança fez com que merecesse ser atendida. À que era apenas uma cadela, Jesus elevou-a à nobreza dos filhos pequenos; mais ainda, cobriu-a de elogios; ao despedi-la, disse-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas» (Mt 15, 28). Quando ouvimos Cristo dizer: «Grande é a tua fé», não precisamos de procurar outra prova da grandeza de alma desta mulher. Vede como ela apagou a sua indignidade pela sua perseverança. E reparai igualmente que obtemos mais do Senhor pela nossa oração que pela oração dos outros.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Invictus por Philip French



Uma proposta cinematográfica



por Philip French The Observer, Sunday 7 February 2010 larger


Clint Eastwood scores yet again with a rousing tale of the moment when Nelson Mandela harnessed the power of rugby to unite South Africa


Morgan Freeman as Nelson Mandela in Clint Eastwood's Invictus. Photograph: Keith Bernstein

Clint Eastwood has been acting in movies for 55 years and directing them for 40. Astonishingly, in an industry that favours youth and discourages originality, he's been doing his best and boldest work in his eighth decade. It seemed he'd reached a creative zenith when he returned to his roots with the classic western Unforgiven in 1992. But since the turn of the century, he's made 10 immensely varied films, including a remarkable defence of euthanasia, Million Dollar Baby, the superb diptych of Second World War films, Flags of Our Fathers and Letters From Iwo Jima, a documentary on piano blues and a deeply felt story of a man rethinking his values in late middle age, Gran Torino.

Invictus
Production year: 2009Country: USACert (UK): 12ARuntime: 133 minsDirectors: Clint EastwoodCast: Julian Lewis Jones, Matt Damon, Matt Stern, Morgan Freeman, Patrick Mofokeng, Tony KgorogeMore on this filmNot all of these films have been particularly subtle, but each has been a fine piece of storytelling, and they've embraced in a generous, unsanctimonious manner a rare range of human sympathies and of characters, extending from an aristocratic Japanese general to blue-collar, Irish-American Bostonians.

The majestic Invictus, the most rousing movie about sport since Chariots of Fire, fits very much into this pattern. It's an account of the relationship between President Nelson Mandela and Francois Pienaar, captain of the South Africa team in the 1995 Rugby World Cup tournament. A manipulative, deeply emotional film, it's openly committed to a belief in the basic decency of mankind, unafraid of an accusation of sentimentality and unabashed in its inspirational aim of drawing people together in a form of communion.

The movie begins with a forthright image of a divided society in 1990. Just released from 27 years of incarceration, Mandela drives along a road that runs between two playing fields. On one side, ragged black kids play football on a dirt pitch between rusty goalposts; on the other, immaculately kitted-out white boys play rugby on a neatly tended grass pitch. The black kids shout excitedly as Mandela passes, the white lads' coach says: "This is the day our country went to the dogs."

The movie then leaps forward to Mandela's election as president in 1994. Settling into a terrifying task in which he seeks forgiveness and reconciliation, he first surprises his inherited staff by offering to keep them on. He then brings in hardline Afrikaners to join his black bodyguards. These scenes are beautifully handled, and although Morgan Freeman is no Mandela lookalike, he gets just right that slight stoop, the rolling gait and the slow, decisive speech, and is soon in authoritative command of the movie.

Crucial is the controversial decision to risk alienating his black followers by preventing the new sports council from abolishing the Springboks rugby team and its green-and-gold uniform. This leads to the positive move to bring the nation together in support of the team at the 1995 World Cup.

At two key moments, the movie has a forceful topicality. Before dawn on his first day in office, Mandela and his bodyguards make their way to the parliament in Pretoria and a van driver drops a pile of Afrikaans newspapers on the pavement in front of them. Mandela translates the headline: "He can win an election but can he rule the country?" The bodyguards bridle at the insult but Mandela remarks: "It's a legitimate question." This is the significant Barack Obama moment.

Later, when he decides to use the rugby championship for both moral and political purposes, he invites Francois Pienaar (an able and convincing performance by Matt Damon) to have tea with him. Pienaar, a middle-class man of conventional views, is the captain of a badly failing team, then in the process of returning to international rugby after years of exclusion during apartheid. To test whether he is the man for the great task he has in mind, Mandela asks him about his philosophy of leadership. To lead by example is his reply and we know, through the honest directness Damon embodies, that he is a man capable of moral growth.

At this point, we inevitably think of the current controversy over the status of John Terry's England football captaincy and are aware of what has been happening to professional sport and its practitioners. Interestingly, in the early days of apartheid, Alan Paton followed up Cry the Beloved Country with Too Late the Phalarope, the tragic hero of which is an Afrikaner rugby star whose life is transformed through an illegal affair with a black girl.

There are wonderful sequences in this film. Blunt but unforgettable is the visit Pienaar and his team make to Robben Island where Mandela was jailed for 18 years in appalling conditions. Pienaar tries to imagine what life was like there, and on the soundtrack Mandela reads "Invictus" , the short Victorian poem by WE Henley that ends with the couplet "I am the master of my fate/ I am the captain of my soul" that had sustained him in prison.

The final 45 minutes are dominated by a series of rugby games and it's splendid at last to have a change from American football. Offhand, I can only think of a small handful of rugby pictures: Lindsay Anderson's near-great This Sporting Life, which presents the game in an dispiriting light; Alive, where Uruguayan rugby players eat their dead team mates when stranded in the Andes; and Roger Vadim's La curée (aka The Game Is Over) in which Jane Fonda' seduces Peter McEnery, her rugby playing stepson. We have Eastwood to thank for making the match sequences lucid, lively, convincing and uplifting. Eastwood has also worked with his musician son Kyle to produce a remarkable soundtrack drawing on a wide variety of South African music.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


Deus vem buscar o homem. A beleza não é mais do que Deus que vem buscar o homem.
Tudo aquilo que é beleza no mundo é como uma encarnação. Em tudo aquilo que nos dá o puro sentimento do belo, há presença real de Deus.
A beleza é esta presença de Deus entre nós.

Simone Weil (1909-1943)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A MELODIA DA SALMODIA...

Cantai ao Senhor um cântico novo,
porque Ele fez maravilhas!
A sua mão direita e o seu santo braço
lhe deram a vitória.

O Senhor anunciou a sua vitória,
revelou aos povos a sua justiça.
Lembrou-se do seu amor e da sua fidelidade
em favor da casa de Israel.

Todos os confins da terra presenciaram
o triunfo libertador do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai.

Cantai hinos ao Senhor, ao som da harpa,
ao som da harpa e da lira;
ao som de cornetins e trombetas,
aclamai o nosso rei e Senhor.

Ressoe o mar e tudo o que ele contém,
o mundo inteiro e os que nele habitam.
Batam palmas os rios,
e as montanhas, em coro, gritem de alegria
diante do Senhor, que vem julgar a terra.
Ele governará o mundo com justiça
e os povos com rectidão.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Para meditar...

Evangelho segundo S. João 3,22-30

Depois disto, Jesus foi com os seus discípulos para a região da Judeia e ali convivia com eles e baptizava. Também João estava a baptizar em Enon, perto de Salim, porque havia ali águas abundantes e vinha gente para ser baptizada. João, de facto, ainda não tinha sido lançado na prisão. Então levantou-se uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, acerca dos ritos de purificação. Foram ter com João e disseram-lhe: «Rabi, aquele que estava contigo na margem de além-Jordão, aquele de quem deste testemunho, está a baptizar, e toda a gente vai ter com Ele.» João declarou: «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: 'Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.' O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.»


Comentário ao Evangelho do dia feito por :

Diádoco de Foticeia (c. 400-?), bispo
A Perfeição Espiritual, 12-14; PG 65, 1171 (a partir da trad. de Solesmes, Leccionário, t. 2, p. 151 rev.)

«Mas o amigo do esposo, que está ao seu lado [...], sente muita alegria»

A glória convém a Deus devido à Sua grandeza e a humildade convém ao homem porque faz dele família de Deus. Se assim agirmos, ficaremos alegres a exemplo de São João Baptista, e começaremos a repetir sem descanso: «Ele é que deve crescer e eu diminuir».

Conheço uma pessoa que ama tanto a Deus – embora se aflija por não O amar tanto como gostaria –, que a sua alma experimenta sem cessar este desejo ardente: que Deus seja glorificado nele e que ele próprio se apague. Um homem assim não sabe quem é, ainda que receba elogios, porque, no seu grande desejo de se humilhar, não pensa na sua própria dignidade. Cumpre o culto divino [...] mas, na sua extrema disposição de amor para com Deus, enterra a lembrança da sua própria dignidade no abismo do seu amor a Deus [...], apaga o orgulho que daí retiraria para nunca parecer, ao seu próprio julgamento, senão como um servo inútil (Lc 17,10). [...] É o que devemos fazer também: evitar todas as honrarias e todas as glórias por causa da riqueza transbordante de amor do Senhor que tanto nos amou.

Aquele que ama a Deus do fundo do coração é por Ele reconhecido. Com efeito, na medida em que acolhemos o amor de Deus no fundo da nossa alma, nessa mesma medida, temos o amor de Deus. É por isso que, de agora em diante, um tal homem vive numa paixão ardente pela iluminação do conhecimento, até que venha a saborear uma grande plenitude interior. Nesse momento, já não se reconhece a si mesmo, fica inteiramente transformado pelo amor de Deus. Um homem assim está nesta vida sem cá estar. Embora continue a habitar o corpo, sai dele continuamente, pelo movimento do amor da alma, que o transporta para Deus. Daí em diante, nunca mais pára: com o coração a arder no fogo do amor, permanece agarrado a Deus de forma irresistível porque, pelo amor de Deus, foi arrancado definitivamente à amizade para consigo mesmo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Família: herança de todos os tempos!

Quando assistimos a um filme de teor patriótico, é frequente vermos os líderes políticos das nações ameaçadas a apelarem às pessoas para “lutar pelas nossas famílias, pelos nossos filhos, pelos nossos valores”.

Apontar o caminho aos outros é menos custoso do que trilharmos um caminho comum de humanidade, porque este exige diálogo e respeito mútuos. Por vezes, propomos, apressadamente, o futuro como meta de esperança, mas esquecemos que é no presente e na invocação das memórias positivas do passado que uma identidade, uma instituição, uma pessoa, uma sociedade se constroem.

Facilmente decretamos o que se deve fazer, não deixando margem de manobra para uma decisão livre, responsável e madura das próximas gerações. Mais rapidamente nos aprontamos a determinar a vida futura dos outros do que a comprometermo-nos a cumprir o presente. Facilmente instauramos a ética do dever aqueles que vêm e pouca ética da responsabilidade à geração actual.

Por isso, a instituição família, célula vital de qualquer sociedade, é chamada a reflectir nos valores que a identificam enquanto comunidade de vida e de amor, enquanto espaço primeiro de sociabilização, de aprendizagem da solidariedade, da afectividade e da amizade. É aqui que se joga a construção de um mundo mais humano e justo. A identidade das gerações futuras será aquilo que os Homens de hoje lhes transmitirem e derem em herança.

Outrora a herança fora a honra, o dever, a verdade, mas também as barbaridades, as guerras, escravidão humana… E hoje, que legado deixamos e testemunhamos aos vindouros? Talvez esteja na hora de redescobrimos a identidade, os papéis, os deveres e os direitos de cada membro da família, para que esta se converta numa comunidade que vive em comunhão, onde as relações não se reduzem somente à sanguineidade, mas educam para uma cidadania global, capaz de ensinar homens e mulheres a serem concidadãos do mundo.

Neste sentido, talvez seja tempo de dar voz às crianças e de perceber o que é que elas esperam da família, do pai, da mãe, dos irmãos, dos avós… Talvez seja interessante perceber que as crianças sentem mais necessidade em ser amadas e acompanhadas do que em ter grandes coisas; de sentirem mais autoridade dos pais do que a sua indiferença rotineira; de perceberem que são elas as crianças e não os seus pais, a quem prestam, como filhos, obediência e respeito.

Talvez esteja na hora de perguntar aos jovens o que esperam da família neste séc. XXI, onde a oferta das novas redes sociais de comunicação parecem atrair muito mais do que os laços e rostos familiares. Talvez seja o tempo de lhes proporcionar espaços familiares diferentes, onde o PC, a PS3, a Net, o telemóvel e o PDA não substituem o encontro pessoal em família (férias conjuntas, ida ao cinema, teatro, passear, visitar familiares, ver um programa de TV em família, partilhar as novidades tecnológicas, rezar e participar na comunidade cristã…). É tempo de passarmos de relações (famílias) virtuais e tecnológicas a relações (famílias) humanas e próximas, de encontros entre rostos concretos, que, mesmo em dificuldades extremas, sentem a alegria de viver e de projectar sonhos e realizações.

Talvez seja o momento de os pais pararem e pensarem a sério na educação dos seus filhos… Facilmente se entrega o papel de educador a outras instituições, como a escola, o futebol, o grupo de amigos, numa plena demissão daquilo que é específico de um pai e de uma mãe, que é educar os filhos para uma vida e cidadania responsáveis, de serviço, de entrega às grandes causas da existência humana. Talvez tenham de aprender a ser pais! Pois, para educar, é preciso testemunhar uma relação sadia, dialogante e verdadeira entre esposos que contagie toda a família, de tal modo que os filhos possam dizer: “vê-de como eles se amam”.

Talvez esteja na hora das famílias serem mais família, sem pensarem só e exclusivamente no sucesso e na felicidade dos seus membros, mas de sentirem que há outros valores que fundamentam e estruturam a vida, como o amor simples e concreto, a verdade, a justiça, a amizade, a fé, a fraternidade, o compromisso, o serviço social. Não basta apelar, é preciso vivê-los, e a família é esse espaço privilegiado onde se “coze” a sociedade futura. Sem esta experiência de comunidade de vida, de amor e de fé, todo o resto se desmorona e caí com o sopro do vento.

Se é verdade que estamos na era tecnológica e digital, de comunicações instantâneas, também é um facto que, mais do que nunca, pais e filhos, família e sociedade são chamados a trilhar um caminho de permanente e comum humanização das suas relações. Só assim conseguiremos fazer do futuro um encontro feliz de gerações que vivem de uma memória, de histórias, de acontecimentos e de pessoas reais que, em todos os tempos, vão esculpindo um admirável mundo novo.

João Paulo Costa

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Porque vale a pena ver Avatar?



Avatar
Este filme vai salvar Hollywood?



"Avatar está a ser escrutinado como poucos filmes o foram na história do cinema: porque é o primeiro de James Cameron desde "Titanic"; porque é o primeiro "blockbuster" sério a explorar a fundo o 3D digital. E há até quem coloque nos seus ombros o manto da salvação de uma indústria em crise. Eis o desafio: sente-se e espere uma experiência que não é possível viver a não ser numa sala de cinema.

A pergunta não tem sido posta desta maneira tão óbvia. Mas é essa a questão na cabeça dos observadores: será o novo filme de James Cameron o "oráculo" que pode apontar a saída para a crise que Hollywood enfrenta?
E porque o seria? Primeiro, porque é a primeira longa-metragem do realizador canadiano em doze anos, desde "Titanic" (1997) que, com quase dois milhares de milhões de dólares de receitas, se tornou no filme de maior sucesso de sempre.
Porque, depois, é o filme mais ambicioso a tirar partido da nova tecnologia de 3D digital - e o primeiro, que não é uma animação nem um filme de género, a pretender usar a técnica como algo mais do que simples "truque" de feira para chamar audiência, mas antes como uma janela para um universo criativo.

Porque, enfim, Cameron é um visionário que, de cada vez que filma, expande as fronteiras do que a tecnologia permite (bem como a dimensão das úlceras dos estúdios). Para "Avatar" criou um novo sistema de câmaras tridimensionais e refinou a tecnologia de "performance capture" que permite transformar em animação digital o registo do movimento e da expressão facial dos actores - chutando para canto as tentativas de Robert Zemeckis em "Polar Express", "Beowulf" ou "Um Conto de Natal".

Mas, sobretudo, porque Hollywood, ela própria, não sabe bem para onde se virar para manter o seu estatuto de fábrica de sonhos. E, ao entregar-se nas mãos de Cameron, cineasta gloriosamente incontrolável que escreveu "Avatar" há quinze anos e preferiu guardá-lo na gaveta até a tecnologia lhe permitir cumprir a sua visão, não há garantias que a salvação que procura esteja ao seu alcance. Porque, como o próprio disse à Associated Press, quanto mais alto for elevada a fasquia das expectativas, maior pode ser a desilusão.

Crise 2009

Dizer que Hollywood precisa de ser salva parece uma afirmação lírica. Os números de bilheteira americanos são escrutinados meticulosamente ao longo do ano e, apesar da oscilação dos comentadores entre a previsão da catástrofe e os elogios triunfalistas, todos os anos se batem recordes de receitas e de espectadores.
Mas, por trás dos triunfos globais de "blockbusters" descartáveis como "2012" ou "Transformers: Retaliação", ou dos êxitos de produções modestas como "A Ressaca", "Distrito 9" ou "Actividade Paranormal", a crise não passou ao lado da indústria.
Os fundos de investimento globais, uma das mais fiáveis fontes de financiamento nos últimos anos, reduziram o investimento ou fecharam a torneira. O mercado do DVD, uma das maiores fontes de receitas, entrou em queda e a transição para o formato Blu-Ray está longe de compensar o dinheiro perdido. As seis grandes "majors" hollywoodianas reduziram o seu volume de estreias anuais, fecharam ou venderam divisões especializadas ou menos rentáveis, entraram em contenção de despesas e fizeram despedimentos em larga escala. E, pior, os "blockbusters" têm-se estampado. 2009 foi um ano negro para duas das seis grandes, a Universal e a Disney, que substituiram prontamente as suas direcções criativas.

O que complica tudo é que, hoje, a regra é um filme de Hollywood lucrar um terço da sua receita em sala, um terço no circuito internacional e um terço em DVD, fora os valores astronómicos investidos no "marketing". Se o terço do DVD se vem abaixo e e se o filme não rende em sala? Houston, temos um problema.
Ainda não começámos sequer a falar da oferta televisiva entre canais generalistas e de cabo e a disponibilização de programas online, do "home cinema" (apesar de tudo, é mais barato ficar em casa a ver um DVD no LCD do que meter-se no carro para ir ver um filme ao multiplex), ou da partilha de ficheiros online que tanto disponibiliza clássicos que não se vêem nas salas ou encontram em DVD como versões pirateadas dos novos lançamentos em sala.

No meio desta paisagem, "Avatar" é, visto por um prisma, o sonho de qualquer estúdio: uma experiência cinematográfica que não é possível viver a não ser numa sala de cinema. Um filme realizado por um cineasta de sucesso garantido, que inventou uma nova maneira de criar efeitos visuais, que força os limites da tecnologia. Em rigor, a narrativa de "Avatar" não precisa do 3D para nada: um ex-Marine paraplégico descobre uma razão para viver através do "avatar" que controla no distante planeta Pandora junto dos Na'vi, povo que vive em harmonia com a natureza e que ele acaba por liderar numa revolta contra os humanos que querem explorar as riquezas naturais do planeta. O 3D introduz apenas uma dimensão extra no universo visual que justifica em absoluto o deslumbramento.

Mas, por outro prisma, "Avatar" é o pior pesadelo de qualquer estúdio: não tem uma estrela de primeira grandeza a transportá-lo (Sigourney Weaver tem apenas participação especial), não é uma sequela, não se baseia numa personagem de BD, e custou tão caro que é legítimo perguntar se alguma vez recuperará o investimento (fala-se de 500 milhões de dólares entre rodagem, pós-produção e "marketing", número que a Twentieth Century-Fox já desmentiu como "ridículo" e que fontes põem mais próximo dos 250 milhões). E é este filme que vai salvar Hollywood?

Armas secretas

A "arma secreta" de "Avatar" são duas. Uma chama-se "3D digital". A outra chama-se "fé".
O cinema em 3D ainda tem a reputação de truque de feira que ganhou quando surgiu pela primeira vez nos anos 1950, com os óculos baratos de duas cores que davam uma dor de cabeça desgraçada ao espectador. A técnica foi abandonada ao fim de um par de anos. Até que a tecnologia de projecção digital permitiu resolver o problema: hoje, o 3D é mais agradável para o espectador, que adiciona alguns milhões de dólares ao orçamento de um filme mas permite igualmente aos estúdios e aos exibidores cobrar uma sobretaxa no bilhete para cobrir o aluguer e manuseamento dos óculos. Ou seja: como o bilhete é mais caro, o estúdio e o exibidor ganham mais e, por conseguinte, lucram mais.
É esse lado pragmático, financeiro, que explica porque é que a indústria está tão interessada em impôr o 3D: uma fonte de receitas que pode representar a diferença entre ganhar ou perder dinheiro - razão pela qual Francis Coppola é um céptico do formato.

No entanto, até agora, a tecnologia tem sido maioritariamente restringida a produções específicas, filmes-concerto, animação e filmes de terror, usada como truque visual. Se, na animação, "A Idade do Gelo 3" e "Altamente" confirmaram que a técnica, bem usada, pode ser mais do que isso, "Avatar" é a primeira tentativa de aplicar a tecnologia a um filme "sério" - e o seu sucesso poderá abrir as portas à utilização da técnica como mais uma ferramenta na caixa dos realizadores em vez de um "gimmick" visual de vida efémera ou uma técnica limitada a géneros específicos. Cameron usa o 3D como janela para o universo de Pandora, como um modo de reforçar os seus cuidadíssimos efeitos visuais; mais do que "épater le bourgeois", a ideia é tornar este universo tão fotorrealista como o mundo lá fora. E, no processo, possibilitar um retorno ao ponto zero do maravilhamento que o cinema criou nos inícios.

Cameron é a primeira pessoa a admiti-lo, como disse a Dana Goodyear, da revista "The New Yorker": "A ironia é que as pessoas pensam [em "Avatar"] como um filme em 3D e a discussão não passa daí. Mas penso que, quando o virem, essa discussão desaparece. A tecnologia é suficientemente avançada para desaparecer sozinha" - e apenas ficar a história que ela serve. E tem razão: a proeza técnica esbate-se à medida que o filme avança.



É isso que justifica a "fé" como arma secreta - fé da Fox em que Cameron seja capaz de cumprir o que prometeu: fazer um filme capaz de recuperar esse deslumbramento primordial de ver qualquer coisa que nunca se conseguira ver antes. E, sobretudo, também fé em que Cameron consiga com "Avatar" um novo "Titanic", um filme de tal maneira abrangente no seu "código genético" que toda a gente o queira ir ver.

Não é, por isso, casual que o próprio Cameron, numa entrevista com Geoff Boucher, do "Los Angeles Times", tenha alinhado "Avatar" com filmes como "Danças com Lobos" (Kevin Costner, 1990), "A Floresta Esmeralda" (John Boorman, 1985) e "A Brincar nos Campos do Senhor" (Hector Babenco, 1991), ou invocado o nome de escritores clássicos como Rudyard Kipling, Edgar Rice Burroughs ou Joseph Conrad. O que filmou, na realidade, é a história de uma viagem iniciática numa outra cultura dobrada de redenção e redescoberta - Jake Sully, o Marine interpretado por Sam Worthington, transita da cultura guerreira humana para a cultura guerreira Na'vi através de uma série de rituais de passagem claramente inspirados pelas aventuras exóticas que fizeram sensação nos primeiros tempos do cinema.

A esse nível, então, "Avatar" é uma jogada triplamente arriscada. Não apenas usa uma técnica de um modo como nunca foi usada antes como o faz num filme que invoca uma herança criativa esquecida, e, sobretudo, implica um colossal investimento financeiro que repousa nos ombros de um cineasta incontrolável. Cameron trabalha dentro de Hollywood, sim, mas nos seus termos: "Exterminador Implacável 2" (1991) foi o primeiro filme a ultrapassar os 100 milhões de dólares de orçamento, "Titanic" o primeiro a passar os 200 milhões - de tal maneira que a Fox se viu obrigada a encontrar um parceiro de financiamento e Cameron abdicou do seu salário para garantir controle criativo (depois do êxito, a Fox restituiu-lhe o dinheiro).

Depois do triunfo de "Titanic", nenhum estúdio ousaria restringir Cameron. Mas uma indústria com histórias de horror de realizadores megalómanos ("As Portas do Céu", de Michael Cimino, "enterrou" a United Artists em 1980) não se pode sentir à vontade ao colocar uma aposta tão forte como "Avatar" nas mãos de um dos raros cineastas que é impossível controlar.
Sejamos honestos: com toda a atenção que tem gerado, dificilmente "Avatar" será um desastre de bilheteira, e convirá não esquecer que 2009 tem provado ser um ano de ouro para a ficção científica - a "space opera" pós-moderna de "Star Trek" (J. J. Abrams, 2009) e a sátira sociopolítica de "Distrito 9" (Neill Blomkamp, 2009) ressoaram com audiências globais de modos improváveis. "Avatar" cruza esses ângulos e mais, numa espécie de "megamix" dos "greatest hits" dos filmes de aventuras siderais.

Mas, como se costuma dizer, "cada caso é um caso". E convém sempre recordar as palavras sábias do grande argumentista William Goldman: em Hollywood, ninguém sabe nada. Só acham que sabem. E é por isso que "Avatar" pode não salvar Hollywood. Mas da reputação já ninguém o livra.
E as expectativas? Talvez seja melhor deixá-las em casa.

Jorge Mourinho, Ípsilon.