quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Caroço de Azeitona


Deixo aqui como proposta de leitura o livro Caroço de Azeitona de Erri de Luca... É um livro pequeno mas de grande densidade e profundidade... Partilho uma possível abordagem e a entrevista do autor...


Caroço de azeitona

Entre nós, chama-se Antigo Testamento a uma recolha de escrituras sagradas do povo hebreu. Na sua língua de origem aparece sob o título de Mikrà / leitura. Porque é esse o seu valor de uso, o de ser lida em alta voz na assembleia dos ritos, nos sábados, nas festas. E mesmo quando alguém a lê por conta própria, nos tempos livres, separado dos outros, a regra impõe que mova os lábios, que não leia só com os olhos. O corpo deve participar, respiração e lábios pelo menos, acompanham a viagem das palavras antigas, fazendo-se portadores destas.

O acontecer destas escrituras é a revelação: um Deus, único e solitário, fez o mundo por meio da sua voz primeiro, da luz em seguida. Extraiu-o do nada, cuidando, com a mesma atenção, do imenso infinito e da partícula.

Uma boa parte da humanidade não tem consciência de ter saído de Deus. Muito aflige o acto de confiança, antes do acto de fé. Permaneço, como não crente, alguém que passa pelas escrituras sagradas e não um residente. Desloco-me ao longo das linhas paralelas de um outro alfabeto, fechado entre vinte e duas letras dispostas entre o alef e o tau, que se lêem em direcção contrária à nossa, em páginas que se desfolham ao contrário. Passo sobre esta língua com o dedo e com as pestanas e dou-me conta do choque, do impacto que sofreu. Uma vontade de se revelar e agir dentro do mundo precipitou-se sobre uma língua de palavras descarnadas, hostil a todo o conceito abstracto. Precipita sobre vocábulos de três sílabas com o acento colocado sobre a última, e transmite-lhes a tarantela febril da sua incandescência. Os verbos, pela urgência, comandam a frase, abrindo-a antes do sujeito, antecipando-o, mesmo quando se trata de Deus. Todas as vezes que se lê na tradução: «E Deus disse», esteja-se certo que em hebraico é: «E disse Deus». Porque nesta vontade de revelação o dizer é mais importante e urgente do que o próprio facto de ser Deus a falar.

Toda a criação, e o fazer seguinte, e todo o fazer segundo, que é o dos homens, escrevem-se dando precedência à obra do verbo. «Escuta Israel», recita, lendo o livro entre nós chamado de Deuteronómio e pelos hebreus Devarìm / palavras, a principal oração hebraica. Escutar é a primeira urgência, o primeiro pedido.

Ler as escrituras sagradas é obedecer a uma precedência do escutar. Começo as minhas manhãs com um punhado de versículos, para que o meu dia tenha um fio condutor. Posso depois dispersar-me durante o resto das horas correndo atrás do que tenho para fazer. No entanto mantive para mim um penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca.

Errio de Luca

De uma entrevista ao Público (Ípsilon) por António Morujo:

É verdade que começa o dia lendo versículos da Bíblia “para que o dia tenha um fio condutor”?
Acordo todos os dias estudando o hebraico antigo. Não sou crente. Tenho necessidade disso para despertar, como algo que acompanha o café, para forçar a caixa fechada do meu crânio.

Porquê esse fascínio pelo texto bíblico?
Porque aquele é o formato original do qual descende toda a nossa civilização religiosa. Para mim aquele é um texto obrigatório. E aproveito de maneira escandalosa do facto de só eu o conhecer. E de poder desmascarar todas as traduções péssimas, ruins e mal intencionadas. Aproveito o talento que tenho, mas o texto deveria ser conhecido por todos.

É nesse sentido que fala da Bíblia como um caroço de azeitona?
Sim. As palavras que lia de manhã, quando trabalhava como operário, tinha-as como companhia para todo o resto do dia. Remastigava-as no trabalho das obras e fazia como se fosse um caroço de azeitona que me ficava na boca.

Já traduziu vários livros da Bíblia, escreveu “Em Nome da Mãe”, uma das mais belas narrativas ficcionadas do nascimento de Jesus. Há um livro ou uma personagem da Bíblia de que goste mais?
José. Nenhum dos evangelhos diz que era velho, podemos imaginá-lo jovem, belo e enamorado.
O seu nome vem do verbo hebraico yasaf, que quer dizer acrescentar. Yosef, à letra, é aquele que acrescenta. E o que acrescenta ele? Para já, a sua fé. Ele acredita na versão da sua noiva, grávida mas não dele. Acrescenta a sua fé à fé da rapariga que tinha acolhido aquela notícia.
Acrescenta-se ainda como esposo daquela rapariga, impedindo assim a condenação à morte, porque ela, perante a lei, era adúltera. E acrescenta-se enquanto segundo pai daquela estranha criatura aparecida no meio deles, Jesus, Yeshu em hebraico. Ele contribui e muito para esta história. No evangelho não é tido em conta mas nesses nove meses deu um contributo enorme.

Dê um exemplo das más traduções da Bíblia de que falou.
No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação.
Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: “Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total”.
Está dizendo que a facilidade, a agilidade de parto ou a naturalidade com que os animais têm os filhos não acontecerá mais. E Adão diz logo: “Maldita a terra.” Porquê, se a terra não lhe fez nada? Porque há outra verificação: Adão não se contentará com o fruto espontâneo, mas esforçará a terra, irá afadigá-la também com o seu suor, irá desfrutá-la para tirar o maior lucro. A terra será maldita por causa do esgotamento dos recursos.

Não há, então, um castigo?
Vê-se que não há intenção punitiva, porque logo a seguir a divindade faz vestes de peles para cobrir aqueles dois nus. Este é o gesto mais afectuoso.
A palavra hebraica que aqui é traduzida como dor, aparece outras cinco vezes: quatro nos Provérbios e uma nos Salmos. Cinco vezes em seis é traduzida como esforço e fadiga. Ali, metem na boca da divindade uma condenação. E sobre isto baseou-se toda a subordinação feminina, a culpa de Eva.

Publicou há pouco em Itália um livro com o título “Penúltimas Notícias sobre Jesus”. Que notícias são essas?
São todas tomadas das histórias do Novo Testamento, do evangelho. São penúltimas porque as últimas, as respeitantes ao seu regresso, ao cumprimento da promessa, essas estão em suspenso. O cristianismo vive num intervalo entre o anúncio do fim, feito por Jesus, e o cumprimento deste anúncio. São dois mil anos de intervalo, de tempo suplementar.

E quem é esse Jesus?
É um Jesus em carne e osso, um Jesus ainda vivo, que está um tempo na oficina de carpinteiro do seu pai, até começar a sua missão. Vive num território ocupado militarmente por uma nação hostil, a maior potência militar. E pode dizer “dai a César o que é de César”, porque nada naquela moeda tem poder sobre o mundo. Por isso, é uma figura em carne e osso. Um hebreu daquele tempo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Para reflectir...

Ninguém foi ontem, nem vai hoje,
nem irá amanhã para Deus
pelo caminho que eu vou.
Para cada homem reserva
um novo raio de luz o sol...
e um caminho inédito.
Léon Felipe,
poeta [1884-1968]

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Será possível pensar, Deus?



A partir do livro “Diário” de Etty Hillesum, mulher judia, que, em 1943, morreu num dos campos de concentração nazi… Foi na dor, na Cruz do holocausto, que foi descobrindo a presença de Deus na sua vida… Um livro fabuloso, denso e intenso…!


Certamente que alguns, mesmo antes de colocarem a pergunta, já saberão dar a resposta exacta ao título, sobretudo aqueles que já têm muitas certezas formuladas. Mas a pergunta não é de resposta fácil, aliás nem saberemos se tem resposta! Mas o que cada um saberá é que mais do que nunca parece que precisamos d’Ele, ou pelo menos de O pensar como tábua de salvação. Como afirmava Etty, se “Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar a Deus” (Etty Hillesum, Diário, Assírio e Alvim, 245). E quem disse isto sabia do que falava porque experimentou na carne e nos ossos o horror do holocausto.

Caso Freud fosse vivo diria que esta necessidade de explicar o mundo, o humano a partir de Deus, resulta de um subconsciente reprimido; Marx diria que em tempos de crise funciona como «ópio do povo»; Nietzsche afirmaria que definitivamente «Deus morreu» face às convulsões emergentes de terror e desastres, remetendo tudo para a necessidade de se criar o Super-homem, capaz de combater e de não sofrer com nada nem com ninguém; Sartre, face ao terror e uma cultura de dramas, morte e medo, de verdadeiro “esplendor do caos” (E. Lourenço), confirmaria a sua tese de que jamais será possível haver essência e que somos absolutamente “seres para a morte” e que a “vida é um inferno” a céu aberto. O que eles nunca disseram foi como é que seria o Homem sem Deus, mas somente quando está presente… Por isso, lhe deram CRÉDITO, pensando-O!

E o nosso mundo, o actual, o que pensará de Deus? Porquê Deus, se temos a técnica e o bem-estar? Se olhar para as religiões, vistas no seu global, dirá que Deus não habita neste mundo, porque as religiões mais do que anunciar Deus, encarceraram-no no templo, em guerras inúteis de busca da verdade e em fundamentalismos sempre postos a matar em nome de Deus? Se olhar para os líderes mundiais, facilmente conceberá um Deus tirano, corrupto, sem escrúpulos, impiedoso, falacioso e sofístico? Mas já escrevia e sentia Etty, também ela testemunha do horror humano: “estou pronta a testemunhar sob qualquer circunstância e até à morte que esta vida é bela e prenhe de sentido, e que não é culpa de Deus as coisas serem actualmente como são, mas culpa nossa” (Ibidem, 242).

Então como pensar Deus, para O dizer hoje, no meio de tanta pluralidade que se diz detentora da verdade? Primeiro, hoje ainda é possível falar de, com e em Deus, por meio de uma fé pessoal e comunitária. Segundo, que o Deus em que os cristãos acreditam é o de Jesus Cristo, encarnado numa história humana, que no paradoxo do sofrimento, e assumindo a dor humana, revelou a LUZ da ressurreição e da esperança a todos aqueles que viviam e vivem na opressão. Terceiro, tudo aquilo que porventura se possa dizer de Deus terá de brotar de uma experiência pessoal e relacional, onde cada um, crente ou não, poderá dizer que Deus é amor, a partir de referências concretas de humanidade, de AMOR humano, que nos leve a DAR e a TER CRÉDITO de Deus face ao mundo.

Como diz Kafka, na sua Carta ao Pai: “tu não terias de fazer qualquer espécie de acção pedagógica, mas simplesmente levar uma vida quer servisse de exemplo; se o teu judaísmo [cristianismo…] fosse mais enraizado, o teu exemplo seria mais convincente” (F. Kafka, Carta ao Pai, 59). O pessoal e o ritual juntos fazem muita diferença… Não nos deixam nem no puro subjectivismo da fé nem no puro vazio do ritualismo repetitivo e incolor.

Mas como fazer passar a mensagem de Deus? É algo que cada um terá de sentir a necessidade de descobrir, de ir ao encontro do Deus vivo, de celebrar, vivendo, essa fé com os outros. O amor de Deus não se impõe por decreto, ou se vive ou então não é possível fazer uma experiência de fé com Deus, sem a qual todas as iniciativas ficam reduzidas a um sentimentalismo subjectivo, sem substância, que é o de transformar a vida em oração e a oração em vida profunda com os outros.

Ainda no dizer de Etty, um livro que todos poderiam e deveriam ler, “toda a energia e amor e confiança em Deus que uma pessoa possui, e que nos últimos tempos tem aumentado tão miraculosamente dentro de mim, deve estar disponível para qualquer outra pessoa que se cruze connosco e que precise” (Ibidem, 236). A isto chama-se Deus encarnado na história concreta do Homem, pela via do amor, onde o rosto da ALTERIDADE se assume como o lugar da revelação do AMOR de Deus.

João Paulo Costa

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Do pós-humanismo à Humanidade




Há bem pouco tempo foram publicados dois livros de grande importância na análise da sociedade contemporânea. Embora os pontos de partida sejam diferentes, eles interagem na busca de soluções e convergem na identificação das causas de um mal-estar da Humanidade. São eles O mundo sem regras, de Amin Malouf[1], e a encíclica Caritas in veritate [Caridade na verdade], do papa Bento XVI[2].

Nessa tentativa de perceber o que de mais profundo está a emergir na actualidade, Malouf considera que estamos numa fase em que “tudo deve ser inventado de novo – as solidariedades, as legitimidades, as identidades, os valores, as referências” [p. 180]. Não poderíamos estar mais de acordo com esta afirmação. Pois, mais do que falarmos num reencontro ou redescoberta dos tempos perdidos, de reencontrar o sentido, a saída para a crise e as referências para os homens de hoje, teremos que inventar um novo modo de Humanidade, uma nova forma de conceber a presença do ser humano no mundo.

Assim, “fazer do dinheiro o critério de toda a respeitabilidade, a base de todo o poder, de toda a hierarquia, acaba por esfarrapar o tecido social” [O mundo sem regras, p. 182]. Por outras palavras, a busca desenfreada e egoísta do lucro por parte de homens sem sentido de comunidade e sem noções de partilha gerou o caos sócio-económico dos tempos actuais. Aliás, não foram estes senhores, das ditas sociedades do alto conhecimento, que levaram ao colapso uma grande parte das economias e dos sistemas financeiros mundiais? No mesmo sentido pensa Bento XVI, dizendo que “o objectivo exclusivo do lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir a riqueza e a gerar a pobreza” [Caritas in veritate, n.º 21].

Mas, Malouf, ao afirmar que “a nossa escala de valores só pode basear-se hoje no primado da cultura e do ensino. E que o século XXI será salvo pela cultura ou então soçobrará” [p. 186], não estará a reduzir em demasia os valores a uma simplicidade bastante contrastante com a complexidade da realidade(s) e da antropologia humana? Perguntamos nós: que ensino ou cultura? A Ocidental ou a Oriental? Laica ou religiosa? Haverá uma cultura ou ensino de tal modo universal que consiga abarcar toda a realidade(s)? Ao reduzir a salvação do planeta à cultura e à educação não será já uma forma redutora de entender o mundo actual? Se todos tivessem acesso a uma educação plena e a uma cultura de excelência estaríamos por si só salvos? Isso bastaria para que o Homem tivesse encontrado o ponto máximo da sua perfeição?

Certamente que ninguém coloca em causa a importância do ensino e da cultura para o progresso da humanidade na sua dimensão material e espiritual. Mas isto é uma forma laica de conceber o mundo, pois coloca de lado a referência ao fundamento último da Humanidade, a sua dimensão religiosa, não no sentido estrito de uma confessionalidade declarada, mas de uma espiritualidade performativa, intrínseca a cada ser humano. A visão religiosa do mundo e todo o simbolismo que lhe subjaz permitem fazer frutificar uma determinada experiência individual, abrindo-a para o universal, para a humanidade toda. Para Mircea Eliade, os “símbolos despertam a experiência individual e transmutam-na em acto espiritual, em compreensão metafísica” [O profano e o sagrado, p. 218][3].

O apelo à dimensão simbólica da vida parece surgir em força na pós-modernidade, após uma recusa humanamente fatal da modernidade, que procurou eliminar toda a simbologia religiosa – sinal de irracionalidade –, resumindo o humano à técnica. Pelo símbolo acedemos à mais alta espiritualidade e, por sinal, à mais alta racionalidade, na medida em que dualizamos os diversos modos de existir. É o símbolo que nos faz “abrir ao mundo” [Mircea Eliade], a sairmos de nós, para experimentarmos o mistério como presença do transcendente no mundo. É esta crise do simbólico em favor de uma alta racionalidade que temos de ultrapassar. Não no sentido de superação mas de integração destas duas dimensões performativas do pensamento e da acção.

Não é possível parar o desregramento do mundo e alcançar a justiça social se buscamos as soluções somente segundo a medida humana. Precisamos de dar o salto para um tempo pós-humanista de modo a percebermos que a vontade humana está para além de si mesma e que a última decisão não pertence a um só homem mas a todos aqueles que buscam a Verdade, a Justiça e o Amor. Porque “sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja […] o homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo” [Caritas in veritate, n.º 78].

Uma era pós-humanista é necessária para percebermos que um humanismo sem o Homem e sem Deus não é possível. Antes, seria insuportável! Uma era pós-humanista, isto é, a necessidade de passarmos pelo deserto dos humanismos, torna-se cada vez mais real, para entendermos a beleza de sermos humanos e de gerarmos uma nova Humanidade capaz de partilhar entre si as alegrias deste mundo.

Neste sentido, concordando com Malouf, diremos que “este século, ou será para o homem o século da regressão, ou será o século do sobressalto e de uma salutar metamorfose. Se necessitávamos de uma «situação de urgência» para nos sacudir, para mobilizar o que há de melhor em nós, aqui estamos” [274]. Talvez não baste mobilizar o que há de melhor, mas seja também necessário (re)ver o que há de pior em nós, de modo a evitar que o pseudo-melhor se transforme em catástrofe e em irresponsabilidade social.

João Paulo Costa





[1] Amin MALOUF, O mundo sem regras, Difel, Lisboa 2009.

[2] BENTO XVI, Carta encíclica Caritas in Veritate, Vaticano 2009.

[3] Mircea ELIADE, O Sagrado e o profano – A essência das religiões, Livros do Brasil, Lisboa 2006.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009



Recolecção do Clero - Setembro

Recolecção do Clero


Data: 29 de Setembro de 2009 Local: Auditório Vita


PROGRAMA


9h30: Laudes

10h: Reflexão orientada pelo Pe. Rui Alberto

11h30: Intervalo

12h: Apresentação do livro "Para uma ética partilhada", por Enzo Bianchi

13h: Almoço

14h30: Início do cíclo de cinema sobre o presbítero, com a projecção do filme "Chuva de pedras"

sábado, 26 de setembro de 2009

Menino de Jesus de Praga e o Princepezinho

Bento XVI vai coroar o Menino Jesus de Praga

Visita do Papa à República Checa dará visibilidade a Cristo

AIS

A visita do Papa à República Checa, de 26 a 28 de Setembro, voltará a dar "visibilidade e presença" a Cristo, num país em que apenas 25% da população se declara crente, afirmou o Pe. Petr Sleich, prior do Carmelo de Praga.

Apesar dos números e do baixo índice de vocações, o sacerdote está optimista: "Essa situação pode mudar rapidamente, como já pudemos comprovar com os nossos próprios olhos, quando, há 20 anos, caiu a Cortina de Ferro".

O prior do Carmelo afirma não estar certo de que "o número dos não-crentes seja realmente tão alto como dizem. (...) Algumas pessoas sentem-se inseguras quando se abordam questões relacionadas com Deus, mas eu não garantiria que carecem de fé”.

As palavras do Pe. Sleich são reforçadas pelo seu itinerário cristão: foi baptizado aos 20 anos, quando estudava Matemática, sendo o que comummente se designa de “vocação tardia”. Hoje, quase toda a sua família é católica.

Devoção ao Menino Jesus de Praga estende-se a todos os continentes

Um dos primeiros gestos de Bento XVI depois de chegar à capital, será a coroação do Menino Jesus de Praga.

A imagem, que se encontra na Igreja de Santa Maria da Vitória desde 1628, recebe anualmente quase um milhão de peregrinos. A sua devoção começou no século XVI, tendo-se estendido a todos os continentes, sendo especialmente activa na Índia, onde existem vários santuários.

“Muitos checos que se declaram não-crentes amam o Menino Jesus de Praga, e estou certo de que muitos acabarão por se tornar amigos dEle", afirmou o Pe. Sleich.

"O coração humano é sensível à imagem do Menino Jesus, e o Natal também é uma festa querida e apreciada por pessoas não muito crentes na República Checa, apesar de ser considerada a nação mais marcada pelo ateísmo na Europa."

"Quando, no nosso santuário, as pessoas têm diante de si Deus representado como uma criança, não sentem medo; pelo contrário, porque Ele pede o nosso amor, o nosso coração, as nossas mãos e a nossa ajuda", sublinha o prior.

A tradição conta que Santa Teresa de Ávila presenteou o Menino a uma nobre espanhola; esta, por sua vez, ofereceu-o à filha, aquando do seu casamento, em Praga.

Durante a Guerra dos Trinta Anos, a imagem foi profanada por soldados da Saxónia, que partiram as suas mãos e a atiraram para um monte de escombros atrás do altar.

Segundo uma lenda, a imagem foi encontrada pelo carmelita luxemburguês Cirilo a Matre Dei, a quem, numa visão, o Menino Jesus suplicou que devolvesse as suas mãos, prometendo-lhe: "Quando mais me honrardes, mais vos abençoarei!".

A devoção ao Menino Jesus de Praga foi guardada por Santa Teresa de Lisieux e Santa Teresa Benedita da Cruz, entre outros. O poeta francês Paul Claudel dedicou-lhe um poema. Recentemente, o arcebispo de Praga, Cardeal Miroslav Vlk, declarou a igreja que alberga o Menino Jesus de Praga como segundo santuário do país.

Menino inspirou "O Principezinho"

O Pe. Sleich revela que a conhecida história «O Principezinho», de Antoine de Saint-Exupéry, está inspirada no Menino Santo.

"O que poucos sabem é que Antoine de Saint-Exupéry estava muito familiarizado com a veneração do Menino Jesus de Praga. O seu livro é lido nas escolas por não se tratar de uma obra religiosa, mas a verdade é que o é em altíssimo grau, pois inspira-se directamente no Menino Jesus de Praga. Um menino que vem do céu, que oferece a sua amizade, morre e volta às alturas..."

"As crianças que visitam o Menino Jesus de Praga entendem que ele não é uma peculiaridade católica estranha e compreendem a sua mensagem", acrescenta o sacerdote.

"São precisamente os símbolos que não precisam de longa reflexão os mais eficazes”, concluiu.

Com Zenit


REALIZADOR
Ken Loach


INTÉRPRETES

Bruce Jones, Julie Brown, Gemma Phoenix, Ricky Tomlinson, Tom Hickey, Mike Fallon, Ronnie Ravey, Lee Brennan, Karen Henthorn, Christine Abbott, Geraldine Ward.


CHUVA DE PEDRAS


Uma exegese possível...


Estamos na Irlanda. Numa cidade profundamente católica.

O filme de Ken Loach inicia com Bob, personagem principal, a roubar um carneiro para fazer algum dinheiro. O desemprego surge como a causa da degradação social. Bob não tem emprego há alguns meses. Recebe uma pequena pensão da Segurança Social que, a par de alguns biscates (vendedor, canalizador, segurança…), vai dando para pagar as contas de casa. O problema agrava-se quando lhe roubam a sua modesta carrinha de trabalho.

Bob é um bom católico (procura ensinar à filha o significado da primeira comunhão mas sem grande êxito!) e pai de família que faz tudo para que nada falte à sua esposa e filha, apesar de viverem com grandes dificuldades financeiras. Esta vai fazer a primeira comunhão. Embora o padre diga que não é preciso gastar dinheiro com a festa (há pessoas que emprestam vestidos), Bob quer dar o melhor vestido à filha (Coleen), ou pelo menos algo digno para que não se sinta envergonhada, pois este será para ela o “dia mais importante da sua vida”. Contudo, o vestido completo fica muito caro e Bob não tem esse dinheiro para pagar. Mesmo assim, e contrariando a vontade da sua esposa (Ane), pensa que a sua obrigação fazer a filha feliz. Decide pedir dinheiro emprestado numa agência. Mas como não arranja emprego não consegue saldar as dívidas (o vestido e carrinha nova que comprou) que será comprada por mafiosos a quem ficará a dever e obrigado a pagar após várias ameaças à sua família. Ao seu amigo Tommy acontece-lhe o mesmo, pois deve em todo o lado, sobrevivendo à custa da filha, que ganha o dinheiro a passar droga e na prostituição sem o pai saber.

Então numa noite decide esperar pelo chefe dos cobradores de dívidas para acertar contas… Algo corre mal e Bob provoca o acidente que vitima o seu credor… Com remorsos, recorre ao sacerdote da comunidade, contando-lhe o que se passou e que se ia entregar à polícia. O sacerdote (father Harry) desaconselha-o ao constatar que foi um acidente: “vais por em causa a tua liberdade e a felicidade da tua família por causa de um corrupto?... Pessoas como tu estão sedentas de justiça, e em nome de Cristo – fonte da vida – bem mercês tê-la”. Bob confessa-se e participa na primeira comunhão da filha.

O filme apresenta-nos o contexto pós- thatcherismo, de miséria e delinquência, jovens inseridos no mundo da droga, falta de trabalho… Mesmo praticantes e com fé cada um vai-se agarrando ao que se pode para garantir a sua subsistência… Vemos uma Igreja sacramental, desligada do mundo real das pessoas. O filme retrata tendencialmente os anónimos da "classe trabalhadora" revelando as suas dificuldades, problemas e condições de vida, retratos com a intenção de promover uma melhor consciencialização da sociedade contemporânea. Para agravar o problema, Ane tenta arranjar emprego mas por falta de prática é logo despedida porque o patrão não está com paciência para ajudar… Os outros trabalhadores assistem passivamente ao seu despedimento e humilhação.

Poderíamos colocar a pergunta: tudo isto por causa de uma primeira comunhão? Não. O problema fundamental não esse… O filme procura colocar em evidência a sobrevivência de uma família perante tantas dificuldades e nestas conseguir realizar a felicidade de Ane… Apesar dos tormentos, Bob faz por tudo para conseguir tal desejo… E apesar de tudo é uma família feliz. Mas não será que a religião leva a isso, as pessoas a darem aquilo que não têm ou não podem dar (diálogo entre Bob e o seu cunhado comunista), esquecendo-se da situação social em que muitas vivem? Ou refugiarem-se numa fé de fórmulas, sem Caridade? É preferível dar um vestido e ficar com contas para pagar e sem comida? O problema não está na festa, mas numa sociedade que não garante aos seus cidadãos o bem-estar e o trabalho digno para viver uma vida feliz.

É curioso o diálogo entre Bob e o seu cunhado: «procura lá respostas quando ela é parte do problema… cinco ave-marias não vão resolver os problemas… impede-te de pensar pela tua própria cabeça…Precisas é de trabalho… Quando se é trabalhador chove sete vez pedras de chuva”. Este diálogo entre um crente e um ateu é relevante porque coloca em confronto dois modos de ver a realidade. Uma Igreja que não leve à mudança fecha-se em si mesma, sem abertura ao mundo real, incapaz de fazer discípulos no mundo real. Predomina a ideia de uma Igreja que se basta a si própria, que se vê mais como poder e não como serviço.

João Paulo Costa