sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


Deus vem buscar o homem. A beleza não é mais do que Deus que vem buscar o homem.
Tudo aquilo que é beleza no mundo é como uma encarnação. Em tudo aquilo que nos dá o puro sentimento do belo, há presença real de Deus.
A beleza é esta presença de Deus entre nós.

Simone Weil (1909-1943)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A MELODIA DA SALMODIA...

Cantai ao Senhor um cântico novo,
porque Ele fez maravilhas!
A sua mão direita e o seu santo braço
lhe deram a vitória.

O Senhor anunciou a sua vitória,
revelou aos povos a sua justiça.
Lembrou-se do seu amor e da sua fidelidade
em favor da casa de Israel.

Todos os confins da terra presenciaram
o triunfo libertador do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai.

Cantai hinos ao Senhor, ao som da harpa,
ao som da harpa e da lira;
ao som de cornetins e trombetas,
aclamai o nosso rei e Senhor.

Ressoe o mar e tudo o que ele contém,
o mundo inteiro e os que nele habitam.
Batam palmas os rios,
e as montanhas, em coro, gritem de alegria
diante do Senhor, que vem julgar a terra.
Ele governará o mundo com justiça
e os povos com rectidão.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Para meditar...

Evangelho segundo S. João 3,22-30

Depois disto, Jesus foi com os seus discípulos para a região da Judeia e ali convivia com eles e baptizava. Também João estava a baptizar em Enon, perto de Salim, porque havia ali águas abundantes e vinha gente para ser baptizada. João, de facto, ainda não tinha sido lançado na prisão. Então levantou-se uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, acerca dos ritos de purificação. Foram ter com João e disseram-lhe: «Rabi, aquele que estava contigo na margem de além-Jordão, aquele de quem deste testemunho, está a baptizar, e toda a gente vai ter com Ele.» João declarou: «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: 'Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.' O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.»


Comentário ao Evangelho do dia feito por :

Diádoco de Foticeia (c. 400-?), bispo
A Perfeição Espiritual, 12-14; PG 65, 1171 (a partir da trad. de Solesmes, Leccionário, t. 2, p. 151 rev.)

«Mas o amigo do esposo, que está ao seu lado [...], sente muita alegria»

A glória convém a Deus devido à Sua grandeza e a humildade convém ao homem porque faz dele família de Deus. Se assim agirmos, ficaremos alegres a exemplo de São João Baptista, e começaremos a repetir sem descanso: «Ele é que deve crescer e eu diminuir».

Conheço uma pessoa que ama tanto a Deus – embora se aflija por não O amar tanto como gostaria –, que a sua alma experimenta sem cessar este desejo ardente: que Deus seja glorificado nele e que ele próprio se apague. Um homem assim não sabe quem é, ainda que receba elogios, porque, no seu grande desejo de se humilhar, não pensa na sua própria dignidade. Cumpre o culto divino [...] mas, na sua extrema disposição de amor para com Deus, enterra a lembrança da sua própria dignidade no abismo do seu amor a Deus [...], apaga o orgulho que daí retiraria para nunca parecer, ao seu próprio julgamento, senão como um servo inútil (Lc 17,10). [...] É o que devemos fazer também: evitar todas as honrarias e todas as glórias por causa da riqueza transbordante de amor do Senhor que tanto nos amou.

Aquele que ama a Deus do fundo do coração é por Ele reconhecido. Com efeito, na medida em que acolhemos o amor de Deus no fundo da nossa alma, nessa mesma medida, temos o amor de Deus. É por isso que, de agora em diante, um tal homem vive numa paixão ardente pela iluminação do conhecimento, até que venha a saborear uma grande plenitude interior. Nesse momento, já não se reconhece a si mesmo, fica inteiramente transformado pelo amor de Deus. Um homem assim está nesta vida sem cá estar. Embora continue a habitar o corpo, sai dele continuamente, pelo movimento do amor da alma, que o transporta para Deus. Daí em diante, nunca mais pára: com o coração a arder no fogo do amor, permanece agarrado a Deus de forma irresistível porque, pelo amor de Deus, foi arrancado definitivamente à amizade para consigo mesmo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Família: herança de todos os tempos!

Quando assistimos a um filme de teor patriótico, é frequente vermos os líderes políticos das nações ameaçadas a apelarem às pessoas para “lutar pelas nossas famílias, pelos nossos filhos, pelos nossos valores”.

Apontar o caminho aos outros é menos custoso do que trilharmos um caminho comum de humanidade, porque este exige diálogo e respeito mútuos. Por vezes, propomos, apressadamente, o futuro como meta de esperança, mas esquecemos que é no presente e na invocação das memórias positivas do passado que uma identidade, uma instituição, uma pessoa, uma sociedade se constroem.

Facilmente decretamos o que se deve fazer, não deixando margem de manobra para uma decisão livre, responsável e madura das próximas gerações. Mais rapidamente nos aprontamos a determinar a vida futura dos outros do que a comprometermo-nos a cumprir o presente. Facilmente instauramos a ética do dever aqueles que vêm e pouca ética da responsabilidade à geração actual.

Por isso, a instituição família, célula vital de qualquer sociedade, é chamada a reflectir nos valores que a identificam enquanto comunidade de vida e de amor, enquanto espaço primeiro de sociabilização, de aprendizagem da solidariedade, da afectividade e da amizade. É aqui que se joga a construção de um mundo mais humano e justo. A identidade das gerações futuras será aquilo que os Homens de hoje lhes transmitirem e derem em herança.

Outrora a herança fora a honra, o dever, a verdade, mas também as barbaridades, as guerras, escravidão humana… E hoje, que legado deixamos e testemunhamos aos vindouros? Talvez esteja na hora de redescobrimos a identidade, os papéis, os deveres e os direitos de cada membro da família, para que esta se converta numa comunidade que vive em comunhão, onde as relações não se reduzem somente à sanguineidade, mas educam para uma cidadania global, capaz de ensinar homens e mulheres a serem concidadãos do mundo.

Neste sentido, talvez seja tempo de dar voz às crianças e de perceber o que é que elas esperam da família, do pai, da mãe, dos irmãos, dos avós… Talvez seja interessante perceber que as crianças sentem mais necessidade em ser amadas e acompanhadas do que em ter grandes coisas; de sentirem mais autoridade dos pais do que a sua indiferença rotineira; de perceberem que são elas as crianças e não os seus pais, a quem prestam, como filhos, obediência e respeito.

Talvez esteja na hora de perguntar aos jovens o que esperam da família neste séc. XXI, onde a oferta das novas redes sociais de comunicação parecem atrair muito mais do que os laços e rostos familiares. Talvez seja o tempo de lhes proporcionar espaços familiares diferentes, onde o PC, a PS3, a Net, o telemóvel e o PDA não substituem o encontro pessoal em família (férias conjuntas, ida ao cinema, teatro, passear, visitar familiares, ver um programa de TV em família, partilhar as novidades tecnológicas, rezar e participar na comunidade cristã…). É tempo de passarmos de relações (famílias) virtuais e tecnológicas a relações (famílias) humanas e próximas, de encontros entre rostos concretos, que, mesmo em dificuldades extremas, sentem a alegria de viver e de projectar sonhos e realizações.

Talvez seja o momento de os pais pararem e pensarem a sério na educação dos seus filhos… Facilmente se entrega o papel de educador a outras instituições, como a escola, o futebol, o grupo de amigos, numa plena demissão daquilo que é específico de um pai e de uma mãe, que é educar os filhos para uma vida e cidadania responsáveis, de serviço, de entrega às grandes causas da existência humana. Talvez tenham de aprender a ser pais! Pois, para educar, é preciso testemunhar uma relação sadia, dialogante e verdadeira entre esposos que contagie toda a família, de tal modo que os filhos possam dizer: “vê-de como eles se amam”.

Talvez esteja na hora das famílias serem mais família, sem pensarem só e exclusivamente no sucesso e na felicidade dos seus membros, mas de sentirem que há outros valores que fundamentam e estruturam a vida, como o amor simples e concreto, a verdade, a justiça, a amizade, a fé, a fraternidade, o compromisso, o serviço social. Não basta apelar, é preciso vivê-los, e a família é esse espaço privilegiado onde se “coze” a sociedade futura. Sem esta experiência de comunidade de vida, de amor e de fé, todo o resto se desmorona e caí com o sopro do vento.

Se é verdade que estamos na era tecnológica e digital, de comunicações instantâneas, também é um facto que, mais do que nunca, pais e filhos, família e sociedade são chamados a trilhar um caminho de permanente e comum humanização das suas relações. Só assim conseguiremos fazer do futuro um encontro feliz de gerações que vivem de uma memória, de histórias, de acontecimentos e de pessoas reais que, em todos os tempos, vão esculpindo um admirável mundo novo.

João Paulo Costa

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Porque vale a pena ver Avatar?



Avatar
Este filme vai salvar Hollywood?



"Avatar está a ser escrutinado como poucos filmes o foram na história do cinema: porque é o primeiro de James Cameron desde "Titanic"; porque é o primeiro "blockbuster" sério a explorar a fundo o 3D digital. E há até quem coloque nos seus ombros o manto da salvação de uma indústria em crise. Eis o desafio: sente-se e espere uma experiência que não é possível viver a não ser numa sala de cinema.

A pergunta não tem sido posta desta maneira tão óbvia. Mas é essa a questão na cabeça dos observadores: será o novo filme de James Cameron o "oráculo" que pode apontar a saída para a crise que Hollywood enfrenta?
E porque o seria? Primeiro, porque é a primeira longa-metragem do realizador canadiano em doze anos, desde "Titanic" (1997) que, com quase dois milhares de milhões de dólares de receitas, se tornou no filme de maior sucesso de sempre.
Porque, depois, é o filme mais ambicioso a tirar partido da nova tecnologia de 3D digital - e o primeiro, que não é uma animação nem um filme de género, a pretender usar a técnica como algo mais do que simples "truque" de feira para chamar audiência, mas antes como uma janela para um universo criativo.

Porque, enfim, Cameron é um visionário que, de cada vez que filma, expande as fronteiras do que a tecnologia permite (bem como a dimensão das úlceras dos estúdios). Para "Avatar" criou um novo sistema de câmaras tridimensionais e refinou a tecnologia de "performance capture" que permite transformar em animação digital o registo do movimento e da expressão facial dos actores - chutando para canto as tentativas de Robert Zemeckis em "Polar Express", "Beowulf" ou "Um Conto de Natal".

Mas, sobretudo, porque Hollywood, ela própria, não sabe bem para onde se virar para manter o seu estatuto de fábrica de sonhos. E, ao entregar-se nas mãos de Cameron, cineasta gloriosamente incontrolável que escreveu "Avatar" há quinze anos e preferiu guardá-lo na gaveta até a tecnologia lhe permitir cumprir a sua visão, não há garantias que a salvação que procura esteja ao seu alcance. Porque, como o próprio disse à Associated Press, quanto mais alto for elevada a fasquia das expectativas, maior pode ser a desilusão.

Crise 2009

Dizer que Hollywood precisa de ser salva parece uma afirmação lírica. Os números de bilheteira americanos são escrutinados meticulosamente ao longo do ano e, apesar da oscilação dos comentadores entre a previsão da catástrofe e os elogios triunfalistas, todos os anos se batem recordes de receitas e de espectadores.
Mas, por trás dos triunfos globais de "blockbusters" descartáveis como "2012" ou "Transformers: Retaliação", ou dos êxitos de produções modestas como "A Ressaca", "Distrito 9" ou "Actividade Paranormal", a crise não passou ao lado da indústria.
Os fundos de investimento globais, uma das mais fiáveis fontes de financiamento nos últimos anos, reduziram o investimento ou fecharam a torneira. O mercado do DVD, uma das maiores fontes de receitas, entrou em queda e a transição para o formato Blu-Ray está longe de compensar o dinheiro perdido. As seis grandes "majors" hollywoodianas reduziram o seu volume de estreias anuais, fecharam ou venderam divisões especializadas ou menos rentáveis, entraram em contenção de despesas e fizeram despedimentos em larga escala. E, pior, os "blockbusters" têm-se estampado. 2009 foi um ano negro para duas das seis grandes, a Universal e a Disney, que substituiram prontamente as suas direcções criativas.

O que complica tudo é que, hoje, a regra é um filme de Hollywood lucrar um terço da sua receita em sala, um terço no circuito internacional e um terço em DVD, fora os valores astronómicos investidos no "marketing". Se o terço do DVD se vem abaixo e e se o filme não rende em sala? Houston, temos um problema.
Ainda não começámos sequer a falar da oferta televisiva entre canais generalistas e de cabo e a disponibilização de programas online, do "home cinema" (apesar de tudo, é mais barato ficar em casa a ver um DVD no LCD do que meter-se no carro para ir ver um filme ao multiplex), ou da partilha de ficheiros online que tanto disponibiliza clássicos que não se vêem nas salas ou encontram em DVD como versões pirateadas dos novos lançamentos em sala.

No meio desta paisagem, "Avatar" é, visto por um prisma, o sonho de qualquer estúdio: uma experiência cinematográfica que não é possível viver a não ser numa sala de cinema. Um filme realizado por um cineasta de sucesso garantido, que inventou uma nova maneira de criar efeitos visuais, que força os limites da tecnologia. Em rigor, a narrativa de "Avatar" não precisa do 3D para nada: um ex-Marine paraplégico descobre uma razão para viver através do "avatar" que controla no distante planeta Pandora junto dos Na'vi, povo que vive em harmonia com a natureza e que ele acaba por liderar numa revolta contra os humanos que querem explorar as riquezas naturais do planeta. O 3D introduz apenas uma dimensão extra no universo visual que justifica em absoluto o deslumbramento.

Mas, por outro prisma, "Avatar" é o pior pesadelo de qualquer estúdio: não tem uma estrela de primeira grandeza a transportá-lo (Sigourney Weaver tem apenas participação especial), não é uma sequela, não se baseia numa personagem de BD, e custou tão caro que é legítimo perguntar se alguma vez recuperará o investimento (fala-se de 500 milhões de dólares entre rodagem, pós-produção e "marketing", número que a Twentieth Century-Fox já desmentiu como "ridículo" e que fontes põem mais próximo dos 250 milhões). E é este filme que vai salvar Hollywood?

Armas secretas

A "arma secreta" de "Avatar" são duas. Uma chama-se "3D digital". A outra chama-se "fé".
O cinema em 3D ainda tem a reputação de truque de feira que ganhou quando surgiu pela primeira vez nos anos 1950, com os óculos baratos de duas cores que davam uma dor de cabeça desgraçada ao espectador. A técnica foi abandonada ao fim de um par de anos. Até que a tecnologia de projecção digital permitiu resolver o problema: hoje, o 3D é mais agradável para o espectador, que adiciona alguns milhões de dólares ao orçamento de um filme mas permite igualmente aos estúdios e aos exibidores cobrar uma sobretaxa no bilhete para cobrir o aluguer e manuseamento dos óculos. Ou seja: como o bilhete é mais caro, o estúdio e o exibidor ganham mais e, por conseguinte, lucram mais.
É esse lado pragmático, financeiro, que explica porque é que a indústria está tão interessada em impôr o 3D: uma fonte de receitas que pode representar a diferença entre ganhar ou perder dinheiro - razão pela qual Francis Coppola é um céptico do formato.

No entanto, até agora, a tecnologia tem sido maioritariamente restringida a produções específicas, filmes-concerto, animação e filmes de terror, usada como truque visual. Se, na animação, "A Idade do Gelo 3" e "Altamente" confirmaram que a técnica, bem usada, pode ser mais do que isso, "Avatar" é a primeira tentativa de aplicar a tecnologia a um filme "sério" - e o seu sucesso poderá abrir as portas à utilização da técnica como mais uma ferramenta na caixa dos realizadores em vez de um "gimmick" visual de vida efémera ou uma técnica limitada a géneros específicos. Cameron usa o 3D como janela para o universo de Pandora, como um modo de reforçar os seus cuidadíssimos efeitos visuais; mais do que "épater le bourgeois", a ideia é tornar este universo tão fotorrealista como o mundo lá fora. E, no processo, possibilitar um retorno ao ponto zero do maravilhamento que o cinema criou nos inícios.

Cameron é a primeira pessoa a admiti-lo, como disse a Dana Goodyear, da revista "The New Yorker": "A ironia é que as pessoas pensam [em "Avatar"] como um filme em 3D e a discussão não passa daí. Mas penso que, quando o virem, essa discussão desaparece. A tecnologia é suficientemente avançada para desaparecer sozinha" - e apenas ficar a história que ela serve. E tem razão: a proeza técnica esbate-se à medida que o filme avança.

Fé

É isso que justifica a "fé" como arma secreta - fé da Fox em que Cameron seja capaz de cumprir o que prometeu: fazer um filme capaz de recuperar esse deslumbramento primordial de ver qualquer coisa que nunca se conseguira ver antes. E, sobretudo, também fé em que Cameron consiga com "Avatar" um novo "Titanic", um filme de tal maneira abrangente no seu "código genético" que toda a gente o queira ir ver.

Não é, por isso, casual que o próprio Cameron, numa entrevista com Geoff Boucher, do "Los Angeles Times", tenha alinhado "Avatar" com filmes como "Danças com Lobos" (Kevin Costner, 1990), "A Floresta Esmeralda" (John Boorman, 1985) e "A Brincar nos Campos do Senhor" (Hector Babenco, 1991), ou invocado o nome de escritores clássicos como Rudyard Kipling, Edgar Rice Burroughs ou Joseph Conrad. O que filmou, na realidade, é a história de uma viagem iniciática numa outra cultura dobrada de redenção e redescoberta - Jake Sully, o Marine interpretado por Sam Worthington, transita da cultura guerreira humana para a cultura guerreira Na'vi através de uma série de rituais de passagem claramente inspirados pelas aventuras exóticas que fizeram sensação nos primeiros tempos do cinema.

A esse nível, então, "Avatar" é uma jogada triplamente arriscada. Não apenas usa uma técnica de um modo como nunca foi usada antes como o faz num filme que invoca uma herança criativa esquecida, e, sobretudo, implica um colossal investimento financeiro que repousa nos ombros de um cineasta incontrolável. Cameron trabalha dentro de Hollywood, sim, mas nos seus termos: "Exterminador Implacável 2" (1991) foi o primeiro filme a ultrapassar os 100 milhões de dólares de orçamento, "Titanic" o primeiro a passar os 200 milhões - de tal maneira que a Fox se viu obrigada a encontrar um parceiro de financiamento e Cameron abdicou do seu salário para garantir controle criativo (depois do êxito, a Fox restituiu-lhe o dinheiro).

Depois do triunfo de "Titanic", nenhum estúdio ousaria restringir Cameron. Mas uma indústria com histórias de horror de realizadores megalómanos ("As Portas do Céu", de Michael Cimino, "enterrou" a United Artists em 1980) não se pode sentir à vontade ao colocar uma aposta tão forte como "Avatar" nas mãos de um dos raros cineastas que é impossível controlar.
Sejamos honestos: com toda a atenção que tem gerado, dificilmente "Avatar" será um desastre de bilheteira, e convirá não esquecer que 2009 tem provado ser um ano de ouro para a ficção científica - a "space opera" pós-moderna de "Star Trek" (J. J. Abrams, 2009) e a sátira sociopolítica de "Distrito 9" (Neill Blomkamp, 2009) ressoaram com audiências globais de modos improváveis. "Avatar" cruza esses ângulos e mais, numa espécie de "megamix" dos "greatest hits" dos filmes de aventuras siderais.

Mas, como se costuma dizer, "cada caso é um caso". E convém sempre recordar as palavras sábias do grande argumentista William Goldman: em Hollywood, ninguém sabe nada. Só acham que sabem. E é por isso que "Avatar" pode não salvar Hollywood. Mas da reputação já ninguém o livra.
E as expectativas? Talvez seja melhor deixá-las em casa.

Jorge Mourinho, Ípsilon.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Arte

Representações do Natal na arte cristã


Nascimento de Jesus (séc. IV, Milão)

A cena da natividade, o nascimento de Jesus há 2000 anos, é das representações mais emblemáticas na arte cristã. A profundidade do acontecimento marcou e continua a marcar gerações, apesar de tantas invasões de outras figuras quer por afastamento da realidade central do Natal, quer por interesses comerciais.

Adoração dos Reis Magos (Séc. IV, Roma)

Até à Idade Média, a cena da natividade mantém os elementos comuns. A presença de Maria, sentada com o Menino sobre os joelhos, o Menino envolto em ligaduras, a presença de José, pensativo e aparentemente apartado da cena central com gesto de apreensão. A partir da Idade Média, alguns factores irão ter influência nestas representações. A espiritualidade da época vai reflectir-se numa tendência humanizante que se começa a sentir nestas representações.

É a partir do século XIV que surgem os motivos para a representação individualizada do Menino Jesus. A cena da natividade continua presente, mas com outras pretensões. Maria adora o Menino, José é representado em adoração com aspecto ancião.

No século XV, a individualização da imagem do Menino é clara. É apresentado nu, normalmente de pé e com o globo na mão. A cruz é um elemento comum, estabelecendo um paralelismo entre a natividade e a Paixão.

Domenico da Tolmezzo (séc. XV)

No século XVI assiste-se a um enorme desenvolvimento. O Menino aparece em variadíssimas atitudes. De pé, prosseguindo os esquemas anteriores, deitado sobre a cruz ou simplesmente adormecido, sentado. Começam as produções de adereços associados ao culto individualizado do Menino Jesus. Os adereços, como as camas, as cadeiras, as vestes extraordinariamente elaboradas, tudo muito ao gosto e modas da época, irão ser uma marca até aos dias de hoje.

Dirck Barendsz (séc. XVI)

Ao longo dos séculos XVII e XVIII chegam até nós inúmeros e ricos exemplos destas características associadas ao culto do Menino e à expressão devocional.

Paul Gaugin (séc. XIX)

A graciosidade com que as imagens do Menino são apresentadas corresponde, em muitos casos, aos desejos dos encomendadores. Em todo o caso, nos vários tempos e épocas culturais, a figuração do Menino, apela à consciência de que o Céu desce e toca a terra, toma a nossa condição, aparece segundo os nossos gostos e perspectivas para nos elevar e projectar na medida divina.

Gaudí (séc. XX)

Desde cedo a arte cristã usou a imagem do Menino para transmitir a mensagem evangélica, mas, acima de tudo, com carácter celebrativo. A imagem associa-se à celebração da fé, à vivência dos sacramentos e à projecção, na vida dos cristãos, desses acontecimentos da revelação. A figura de Cristo, representada inicialmente através de múltiplos símbolos e variados modelos iconográficos, ganha um relevo imprescindível.

P. António Pedro Boto
Director do Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa
In Correio da Manhã
25.12.09

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

17 maneiras de rezar

17. Trabalhar com as próprias mãos

Trabalhar com as próprias mãos
em tarefas caseiras, na costura,
no seu ofício, na bricolagem
e fechar o rádio e todo o zunzum interior
escutar o que fala sem palavras
enquanto as mãos se ocupam
e ocupam a superfície da alma.
Ou então, conduzir um automóvel
muito distendido, atento, delicado
uma vez que essa ocupação deixa livre
um pensamento sem pensamento
que amadurece algures.


16. Nem as imagens nem o texto

Nem as imagens, nem o texto,
nem o lugar, nem a hora
nem a palavra que brota do coração
nem a repetição aborrecida e atenta
nem mesmo o silêncio
mas simplesmente o real
terrivelmente real e chão, as coisas, a superfície
a conversação sem finalidade
as tarefas, os lazeres,
comer, sonhar, dormir
e o sofrimento intolerável, indizível
de tal modo sofredor que nem sofremos
a espera nua do que deve vir ao mundo
para que a terra seja como o céu.

15. Duvidar, duvidar de Deus intensamente

Duvidar, duvidar de Deus intensamente
o quê, haverá um Deus bom e todo poderoso
com toda esta crueldade na natureza
com a infernal crueldade humana
as crianças morrendo de fome, os explorados,
os nevróticos, os embrutecidos, os alcoólicos, todos os [resíduos humanos?
É bela, a imagem de Deus!
E o que é Deus
senão pobre pequena ideia elaborada
no planeta em que somos
nada, no seio do universo brilhando
para dimensões inimagináveis
Objecções, objecções, agonia de Deus
no coração do homem de fé.
Ele respondeu cem vezes, mas trata-se de ausência
Pobre Deus em agonia
como o Verbo idêntico a Si no jardim das oliveiras
enquanto os seus melhores amigos dormiam…
Não é realmente nada pouco vigiar. Na sua agonia.

14. Sair da igreja

Sair da igreja
deixar a celebração
porque não se aguenta mais
porque não podemos continuar
por causa do excesso de intensidade e de sobranceria
do que é considerado dever aí ser feito
em contraste com o desaire aflitivo do que de facto se passa
deixar sem escândalo, sem contestação, com tristeza
e o desejo resistente que de novo se eleve
como? como?
a luz do grande poema onde se inauguram todas as coisas.

13. Permanecer em paz

Permanecer em paz
que é a harmonia dos poderes
para lá (certamente) do turbilhão
para lá da abstenção serena
para lá do abandono voluntário dos heróis
na harmonia dos poderes
coincidindo com a mais humilde humildade
isto, na mediocridade dos dias
sem altivez, sem saber e algumas vezes sem graça.

12. Ouvir música

Ouvir música
A Missa em Si menor de Bach, por exemplo,
especialmente Incarnatus, Crucifixus, Resurrexit
ou então outra coisa
não necessariamente música religiosa
mas escutar na profundidade
escutar o canto do novo Orfeu presente
em toda a música humana
incarnação, crucifixão, jubilação
Se pudermos cantar nós mesmos e tocar um instrumento,
é ainda melhor!

11. Escrever

Escrever
por prazer, por gosto, para ver
escrever para escutar o que o barulho comum encobre ou confunde
incluindo o barulho das palavras
Lavar as palavras até que elas fiquem
completamente puras e redondas e lisas
ou então ir pelos caminhos abundantes
ou então refazer, refazer indefinidamente
para abordar um pouco mais o que falta e insistir
escrever para chegar àquele ponto
que comunica com o que está para além e aquém de toda a palavra.

10. Desejar, desejar desesperadamente

Desejar, desejar desesperadamente
desejar até à dor e à angústia
até ao grande vazio amargo
desejar que seja de outro jeito
desejar o fim das crueldades
das loucuras, da estupidez, do abjecto,
desejar a satisfação, a luz, a ternura
ter muita fome, ter muita sede
do mundo diferente
e de si-mesmo diferente.

9. Abrir a Sagrada Escritura

Abrir a Sagrada Escritura
e aí está!
Não é um livro, não é o Livro,
é o lugar da Palavra que se estende para além das palavras
sonho sem sonho à margem do texto
ressonância através de todas as espessuras da vida
fonte cuja nascente é invisível,
pensamentos, imagens, palavras
movimentos sóbrios do coração
a Letra é necessária
o espírito vai
porque o sentido da Escritura é a vida salva.

8. Conversar disto e daquilo

Conversar disto e daquilo
e de repente
sem Deus ou sem eu o prever
acontece que nos pomos a falar do essencial
da vida, da morte, do futuro da humanidade
do amor, da verdade
talvez de Deus ou talvez não,
da religião cristã, dos grandes caminhos do homem.
Alargamos a conversa a outros, sem ódio,
sem controvérsia, sem baixa paixão, mas porque isso importa mais [que tudo o resto
e porque falamos disso tão poucas vezes
na conversa aquele que em Jesus Cristo
deixa passar algo do Anúncio
não porque se crê obrigado
mas porque ele é como é, ele está nele,
a sua palavra transporta a Palavra
e pode acontecer que alguém escute
pois o fundo do coração está aberto

7. Como uma criança, dizer coisas a Deus

Como uma criança, dizer coisas a Deus
oração, súplica, raiva ou ternura
pesar ou júbilo
isso escapa
nem nos apercebemos disso
senão mais tarde, algumas vezes.
Aquele que assim fala em nós é a criança
sempre na aurora da vida
ingénua como a vontade divina.

6. Dormir

Dormir
e deixar o coração de vigia.

5. Angustiar-se profundamente por não rezar

Angustiar-se profundamente por não rezar
gemer interiormente todo o dia por ser incapaz
da mais pequena invocação
da mais pequena leitura
mesmo do Evangelho
de se sentir frio, seco, ausente
e feliz num outro lugar
sem Deus, sem Cristo, sem tudo isso
e sofrer justamente por isso
e finalmente decidir entregar-se assim a Deus
e esperar, sem qualquer pensamento.

4. Exprimir um pedido do Pai Nosso

Exprimir um pedido do Pai Nosso
só um,
uma só vez.

3. Abrir a Sagrada Escritura

Abrir a Sagrada Escritura
abrir o Livro somente
e partir em devaneio
imaginar o seu próprio livro
contar histórias a si mesmo
remexer nos seus velhos mitos
de crueldade, de triunfo, de sensualidade, de desespero,
de amor, de caridade, com o normal narcisismo dessas coisas
e ler, no texto,
duas palavras.

2. Ler um livro

Ler um livro de pensamento exigente
com um forte desejo da verdade
sem avidez em saber
sem pretensão de disputar
mas por gosto, por amor da verdade
Abrir a porta profunda
a todo o pensamento que emerge
e deixá-lo permanecer em paz
de modo que ele venha a dar o seu fruto.

1. Caminhar

Caminhar ao longo de todo o comprimento
numa igreja românica, bela, bastante grande
Saint Philibert de Tournus, por exemplo,
ou numa igreja gótica,
Chartres, Reims, Bourges
ou barroca, como Wieskirche
e não pensar em nada,
absolutamente nada,
deixar vaguear o olhar
deixar cantar a pedra,
deixar que o lugar fale,
e partir, algum tempo depois e sem nenhuma pressa.


Maurice Bellet
In Cahiers pour croire aujourd'hui, Novembro 1993)
Trad.: MLPV/JTM
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura